Sempre em busca do mecenas
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quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
Desde que a arte virou um bem de consumo, está lá o mecenas. O protetor do artista, que vai salvaguardá-lo de qualquer dificuldade e principalmente provê-lo de recursos. Os tempos mudaram, mas essa situação permanece. Os artistas ainda correm atrás do mecenas. Principalmente, os independentes que não têm o aval de um grande estúdio, uma grande gravadora ou de alguma institutição que viabilizem suas produções. Para muitos deles, o mecenas contemporâneo se chama leis de incentivo cultural.
É o único caminho, única fonte de dinheiro. As leis de incentivo estão sustentando muito artista e produtoras independentes, mantendo acessa a propagação do trabalho, dando visibilidade, disse Gil Baroni, cineasta e produtor audiovisual, que já realizou ou participou da produção de cerca de 15 curtas e cinco longas-metragem via lei de incentivo. Sou filho da lei de incentivo. Tenho um espaço físico, mas só posso mobilizar uma infra-estrutura na hora que tem dinheiro. E o dinheiro só vem da lei de incentivo, conta ele, que é advogado e um dos donos da produtora WG7PR.Com, em Curitiba.
Segundo ele, conseguir a aprovação do projeto junto às leis de incentivo não é nenhum bicho-de-sete-cabeças, basta seguir as regras e o cronograma, preencher o formulário padrão e anexar a documentação necessária. Se o projeto estiver bem organizado é aprovado e ganha a autorização para captar os recursos junto a iniciativa privada. Existem diferenças de acordo com a área da cultura e também das leis de incentivo dos municípios, estados e da União, alguns são mais rigorosos. Mas todas seguem essa premissa básica, explica Baroni, dizendo que depois precisa ter muito zelo com o orçamento e prestação de contas.
O cineasta executou a maioria dos seus projetos via Lei Rouanet. Veja que antes da lei federal, era preciso angariar patrocínio com a iniciativa privada. Aí veio a Rouanet, em 1991, mas que só começou a ser utilizada, de fato, em 1995, depois que fizeram a alteração para que a empresa destinasse parte do seu imposto de renda para projetos de cultura. Na verdade, o mecenas é o poder público, que abdica do dinheiro do imposto. Não há contrapartida do empresário. O Estado delegou ao particular o direito de escolher para onde vai o imposto que paga, ele não desembolsa nada a mais, explica Gil Baroni.
No entanto, ele diz que essa não é a solução. Vejo que as pessoas se iludem. A captação de recursos muitas vezes é um entrave, as grandes empresas só querem investir naquilo que elas acham que dará visibilidade. Há uma politicagem no meio e as empresas que sobram viram um grande concurso. A produção independente deixou apenas de ser impossível com as leis de incentivos e passou a ser difícil, define ele que trabalha com uma infinidade de artistas do universo independente como o violonista carioca Jean Gabriel, de 25 anos, que também pode-se dizer, é um filho adotivo da lei de incentivo.
Jean deixou Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, há cinco anos, para seguir carreira em Curitiba, e encontrou em projetos na área do cinema e audiovisual subsidiados por esses mecanismos seu lugar no mercado. Me dedico a composição e produção de trilhas para o cinema, com muita simplicidade. Quem abriu esse espaço para mim foi o cineasta Fernando Severo, que depois me apresentou a outros produtores. Só neste ano, estou envolvido com seis trilhas para filmes do Severo e do Gil Baroni, todos produzidos com recursos via lei de incentivo, conta ele, que também é professor pela Fundação Cultural.
O músico teve um projeto aprovado pela Lei Rouanet chamado Passeios que propõe gravar um CD sobre a história da música contada pelo violão e piano, com o orçamento de R$ 70 mil, junto com o pianista Bruno Piazza, de São Paulo. Agora temos que captar o recurso. Sei que é difícil, mas se você se organiza e procura ser o mais profissional possível, trabalhar com qualidade, ajuda. Como é muita gente fazendo a mesma coisa, o negócio é chegar bem preparado diante da iniciativa privada, acredita ele, que também toca alaúde.
Meu lance é a música erudita, instrumental. Mas nesse ramo só ganha reconhecimento quem participa de concursos. É preciso saber o momento certo para aparecer, de ganhar visibilidade e estudar muito, ficar enclausurado mesmo. É o que venho fazendo nesse tempo todo que estou aqui, contextualiza. Enveredei por esse caminho das trilhas e também estou focando no projeto aprovado pela Lei Rouanet, porque é de onde vem o dinheiro para a agente trabalhar. Isso até que eu possa fazer aquilo que mais gosto, que são concertos de música barroca, revela Jean Gabriel.


