Sempre é tempo de viver
Na adolescência, Aparecida Romero acalentava o sonho ''de toda moça'': namorar, noivar, casar e ter filhos. ''Sonhava muito com isso, mas meu pai sempre deu uma criação para, se após o casamento nada desse certo, continuássemos as nossas vidas''.
Parecia premonição. Após se casar, Aparecida descobriu que, além de manter a boemia da solteirice, o marido era alcoólatra. Começava seu calvário. ''Lembro-me que, na lua-de-mel, ficava sozinha no apartamento. Na volta, descobri que tinha um marido que não me ouvia, mas sempre com aquela impressão e inocência de que um dia a situação iria mudar''.
Os filhos vieram. O mais velho tornou-se seu fiel confidente. ''Era ele quem me ouvia, quem, mesmo sem eu pedir, prometia que iria vencer na vida. Ele era uma luz, dizia que iria vencer por mim''. A promessa adquiria contornos reais. Aprovado em Engenharia, pela Universidade Estadual de Londrina, o rapaz decidiu adiantar o curso. As bebedeiras do pai continuavam.
Sem poder mais dizer aos filhos - que não acreditavam - que o pai deles estava ''viajando a trabalho'', Aparecida recebeu a notícia, em uma sexta-feira, que mudaria sua história. ''Achava que meu filho, com quem eu falava e confidenciava, era eterno e perfeito: ele morreu naquela noite de sexta, num acidente''.
A ausência do filho fez Aparecida mais uma vez perder o chão. ''Revoltei-me com Deus. Perdi a vontade de viver, trabalhar não tinha mais sentido. Ao lado de meu filho, Alex, embarcávamos na esperança e no entusiasmo do Clineusinho. Depois de sua morte, pensamos em nos jogar debaixo de um caminhão'', recorda, emocionada.
A gota d'água deu-se quando Aparecida foi parar em uma clínica. ''Meu marido se afundou no alcoolismo, estava prestes a criar um filho revoltado e precisava fazer algo. Não hesitei e me apeguei a Deus''. Decidida a dar novo rumo à sua vida, Aparecida adotou uma criança. Seu nome, Gabriela. ''Enquanto isso, o Alex e o pai brigavam, cada vez mais, pois ele não aceitava o vício do pai. E o pai não queria o filho em casa''.
O estopim se deu em uma dessas brigas. ''Os dois discutiram, trocaram agressões e meu filho decidiu ir embora. Decidi ir junto, com a Gabriela. Deus interveio em minha vida naquela noite''.
O saldo foi o mais inesperado. O diálogo e a harmonia. ''Hoje, temos paz. Tanto eu com meu ex-marido, que hoje trabalha e se mantém, como com o Alex e a Gabriela, que vai fazer 11 anos, estuda e é uma sonhadora, a exemplo de mim. Se disser que não sinto saudades de meu filho que faleceu, estaria mentido, mas o carrego dentro de mim. Hoje, por qualquer coisa as pessoas reclamam. Dedicação, amor e conversa superam barreiras. Comecei a viver de novo. E não me arrependo''. (T.N.)





