Sempre delicioso
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
As incursões no universo gastronômico nem sempre correspondem às expectativas do paladar. Quem nunca pediu um prato, cuja aparência era deliciosa, mas o sabor bem distante disso? Podem atirar as pedras. A tarefa de encontrar uma comida equilibrada em todos os aspectos, desde a apresentação, degustação, aroma e sensação de bem estar pós-refeição, pode ser suada mesmo. Comer novamente o prato, com a mesma perfeição, então, é um achado. Inteligentes, a língua e a memória guardam muito bem todas as informações papilo-gustativas dessa culinária impecável. Elas servirão de norte, mais para frente.
"Gosto muito de pizza e vejo como é difícil encontrar uma pizzaria que consiga manter o mesmo padrão de massa e tempero dos recheios. Geralmente mudam muito, uma vez a massa vem mais fina e crocante, outra mais grossa e mole. Talvez seja resultado da mudança das equipes de cozinha ou de fornecedores", observa o repórter Luciano Balarotti, da Folha de Londrina. Ele e outros quatro jornalistas da redação indicam pratos que sempre pedem em restaurantes de Curitiba, sem medo de se decepcionar com o gosto.
Jamais tiveram o dissabor da comida ser servida insossa ou salgada demais, nem muito gordurosa ou pouco temperada. "Nunca me arrependi de pedir a pizza Parmegiana da Baggio. Ela sempre vem com o mesmo gosto, garanto. É super simples e uma delícia, feita com queijo parmesão e molho de tomate docinho. Se for comer em casa é bom pedir com borda recheada, porque ela vem com muito molho, ao contrário das pizzas que estamos acostumados a comer em Curitiba, e pode derramar no transporte", elogia Balarotti.
Para quem tem um pé atrás com frutos do mar, o repórter Diogo Cavazotti sugere os espetinhos de camarão e o Marta Rocha da Karbonell, no Ahú. "São sempre fresquinhos, firmes e bem limpinhos. Eles retiram as tripinhas de todos camarões, um cuidado que torna o gosto ainda melhor", acredita. O Marta Rocha, uma espécie de estrogonofe com champingon, palmito, creme de leite, catupiry e especiarias gratinado com claras em neve, é servido com fritas, arroz e legumes. "O prato é farto, não precisa ficar pescando camarão. Peço sempre que vou lá, há três anos, e sempre é fantástico", garante.
Das delícias do mar, a colega de redação Maigue Gueths é fã do peixe frito do Pantagruel, no São Lourenço. "É sempre sequinho, e não fica aquele gosto de gordura na boca. A carne do peixe é bem branquinha, chega a ser bonito de ver. Vem acompanhada de salada, arroz e uma maionese maravilhosa, com pedacinhos firmes de batata", diz Maigue, já com água na boca. "Quando você vai comer algo cria uma expectativa e é sempre muito bom se o prato é tão gostoso quanto esperava. Sempre peço o peixe, mas também recomendo a galinha à moda caipira servida com polenta mole, a moqueca, o vatapá e a feijoada do Pantagruel", sugere ela.
Seja o tradicional Bachalhau Gomes Sá, apenas puxado no azeite, ou o Bacalhau à Moda Açoriana, a especialidade da Cantina Açores, no Juvevê, sempre agrada o paladar do repórter Claudio Yuge. "Não é sempre que se encontra um bacalhau tão bem feito e equilibrado. O Bacalhau à Moda Açoriana é uma espécie de lasanha com molho branco, batata, tomate e azeitona, uma comida típica de Açores. Demora um pouco para chegar o prato porque o preparo é artesanal e trabalhoso, mas vale à pena esperar. O cozinheiro sempre acerta a mão, o bacalhau é aromático, temperadinho e bem servido", destaca Yuge.
Da jornalista Denise Ribeiro era de se esperar a sugestão de guloseimas. Frequentadora da Confeitaria das Famílias, na Rua XV de Novembro, desde a infância, ela indica o "doce doce" papo-de-anjo e o tradicional madrileño, receita criada pelo fundador, o espanhol Jesús Terzado, em 1945. "Gosto do papo-de-anjo de lá porque ele tem uma casquinha de açúcar e é bem molhadinho por dentro. Quando bate a saudade gosto de comer o madrileño, que experimentei há 20 anos e continua com o mesmo sabor. A massa folhada é sempre crocante, o doce de leite fresquinho e cremoso e o granulado de suspiro em volta. Dá uma sensação maravilhosa comer esse doce, me provoca até uma certa nostalgia", descreve ela.
Pizza Parmegiana (em média R$ 19,00)
A receita tradicional foi trazida da Itália por um dos sócios-irmãos da Baggio Pizzeria, José Antonio Baggio, e está no cardápio há mais de dez anos. "É a nossa pizza que ganha mais molho, que de tão gostoso a clientela pede para colocá-lo na base de outras pizzas", conta o sócio da Baggio Juvevê, Veriano Baggio, que revela o segredo da pizza. O molho adocicado é cozido com uma posta de carne só para dar o gosto e depois é retirada. Para a massa não ficar encharcada com a quantidade de molho, ela é assada até ficar sequinha. "Também mantemos o mesmo pizzaiolo desde o começo da casa, que sabe o nosso padrão de massa e recheios. Nós, os proprietários, também estamos sempre de olho em tudo", garante Veriano.
Marta Rocha (R$ 46,00 para duas pessoas)
Garantir a qualidade e procedência dos camarões de perto é um trabalho que um dos donos do Karbonell, o Rocha, nunca repassou para funcionários. Ele mesmo compra, seleciona e armazena os frutos do mar, o que lhe trouxe a experiência para identificar de longe um camarão descansado e esfarelento. "A grosso modo, manipulo 221 mil camarões, por ano", conta. Para o sabor dos pratos não oscilar, lá nada é preparado no olhômetro. As receitas são feitas com medidas certas, os camarões são eviscerados e a equipe de cozinha é mantida, há 12 anos. "O segredo dos pratos é guardado a seis chaves, porque a sétima eu engoli", brinca Rocha.
Peixe empanado (R$ 36,00 para duas pessoas)
Quando perguntou ao peixeiro qual seria o melhor peixe para culinária, Otávio Sbalquiero, dono do Pantagruel, nunca esqueceu a resposta: é o fresco. "Esse é o segredo. O peixe fresco sempre fica crocante e úmido por dentro quando é frito, ao contrário do congelado, que perde o sabor e muita água", revela ele, que prepara pessoalmente todos os pratos. O peixe do Pantagruel (pode ser abrotea ou o robalo) é temperado com sal e limão, depois empanado em farinha de trigo, depois no ovo e por fim na farinha de pão finíssima para não encharcar de gordura. Sbalquiero só usa gordura vegetal de qualidade e frita o peixe em temperatura alta. Já a maionese é um segredo da esposa, Marta.
Bacalhau à Moda Açoriana (em média R$ 35,00, por pessoa)
Cerca de 99% dos pratos do restaurante Cantina Açores é preparado pelo dono, João Francisco Raposo. "Dificilmente o sabor muda, porque a mão que prepara é a mesma. Aqui nada é comercial é tudo feito por mim, essa é a garantia da qualidade", disse ele, que aprendeu a cozinhar com a mãe, em Açores. Mas há algumas dicas de preparo: só compra bacalhau do Porto, o peixe fica de molho na água por 24 horas antes de ser usado e não falta ingredientes como batata, cebola, alho, azeitona, tomate e azeite importado. É o que dá gosto ao molho.
Madrileños e papo-de-anjo (R$ 3,50 cada)
Segundo o confeiteiro Manoel Rodriguez Garcia, o Manolo, o segredo do tradicional madrileño é a massa folhada feita com manteiga. "Nosso patrão nunca deixou entrar aqui nem um quilo de margarina, porque a massa feita com esse produto depois murcha. Já com manteiga ela fica sempre crocante, mesmo em contato com o doce de leite", revela ele que corta cada disco de massa folhada. Já o diferencial do papo-de-anjo da Confeitaria das Famílias é ser envolto em glacê de açúcar, por isso fica sequinho por fora e molhadinho por dentro. Mas o grande segredo mesmo é manter o Manolo há 50 anos como confeiteiro da casa.


