SEM-TETO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de novembro de 2008
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
"Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...". Confesso que não me lembrei dos versos infantis de Vinícius de Moraes quando a primeira bomba de feito moral estourou no meio do povo na ação de reintegração de posse de um terreno no bairro Fazendinha, no dia 23 de outubro deste ano, em Curitiba.
Conduzida com dentes de chumbo pela Polícia Militar (PM), a ação resultou em debandada dos sem-teto, famílias carentes e dos muitos grileiros urbanos que queriam ver dinheiro brotar do chão e em um mal-estar na polícia, depois do afastamento dos responsáveis pela operação. Deixou também feridas em mulheres, marcadas com balas de borracha disparadas pela PM. Haviam também as crianças, tornadas escudo na linha de frente da batalha. Homens estavam por ali, fumando, queimando pneus. Eram todos (polícia, sem-teto, nós), no entanto, invasores duma terra devastada...
Vendo as fotos de Letícia Moreira, companheira na cobertura da reintegração para esta FOLHA, e de Diego Singh, lembro que ainda hoje existem pessoas dormindo nas calçadas em torno do terreno - agora protegido por arames farpados. A musiquinha não é vã e ganha um outro sentido. Um sentido bem mais cruel que o imaginado pelo poetinha. Nada de novo no front.


