Curitiba é tida como uma cidade conservadora, mas alguns moradores, definitivamente, não o são. Até aí, nada de novo. Sem nenhuma pretensão de falso moralismo, uma cena em particular e, para mim, sem precedentes, convenceu-me de que a falta de pudor pode, sim, extrapolar todos os limites da razão e bom senso.
Era por volta de uma hora da madrugada de segunda-feira, dia e horário em que, normalmente, as ruas da cidade ficam quase vazias. Nesse dia, no entanto, por conta das apresentações do Festival de Teatro de Curitiba, o vazio não era tão grande assim. Estava com minha filha e mais três amigas, quando uma delas chamou a atenção para o carro que parou ao lado, no sinaleiro.
Era uma dessas picapes utilitárias, de cor preta. Os vidros estavam fechados e tinham aquela película escura, que, na verdade, não era tão escura assim. E não foi, exatamente, o carro que despertou olhares curiosos, inclusive, os meus, mas o que se passava dentro dele.
A reação de espanto de minhas amigas e filha foi seguida de uma gargalhada em coro. Não me restou outra alternativa, a não ser rir, também, até para disfarçar o constrangimento diante de minha filha. Há muito ela deixou de acreditar que os bebês são trazidos pela cegonha ou nascem da sementinha que o papai plantou na mamãe. Mas, acredito que até mesmo a mãe mais liberal do mundo se sentiria, no mínimo, incomodada com a situação - sentimento que não pairou no carro ao lado.
Uns 30 segundos depois, o sinaleiro abriu e seguimos nosso caminho. O carro vizinho continuou lá, sem preocupação. Dava para ver pelo retrovisor. Os comentários das apresentações de humor, que tínhamos visto momentos antes, foram momentaneamente esquecidos por conta daquela situação inusitada. E, quando menos esperávamos, eis que aponta, novamente, no retrovisor, a picape preta. Agora apressado, o motorista nos ultrapassou e algumas quadras adiante, entrou na garagem de um prédio. Outra surpresa: ele estava tão perto de casa!
Que os carros fazem as vezes de lugares discretos (ou não) para encontros íntimos, não é novidade. Tanto que os 'drives thrus' de algumas lanchonetes deixaram de ser locais frequentados, apenas, por preguiçosos que não querem sair do carro para pegar um sanduíche com porção de fritas. Mas, no sinaleiro? Já pensou se a moda pega?

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