Quando foi informado de que a Casa Joaquim Franco, projetada por ele dentro da proposta modernista, teria sido demolida, na surdina, o arquiteto Elgson Ribeiro Gomes, de 84 anos, achou que se tratava de uma brincadeira de mau gosto. ‘‘Num primeiro instante, achei que fosse um trote. Mas logo constatei o fato. Fiquei muito chateado, lógico. É como se perdesse um filho, chorei durante uma semana aquela perda’’, lembra. ‘‘Essa não foi a única assassinada. É só lembrar, por exemplo, as casas que foram derrubadas do Lolô Cornelsen e do Vila-Nova Artigas aqui em Curitiba.’’
  A Casa Joaquim Franco, na Rua David Carneiro, foi a primeira projetada por Elgson Ribeiro, ainda nos tempos de faculdade, em São Paulo, em 1949. ‘‘Eu tinha 29 anos quando projetei a casa, inspirada na Vila Savoia, em Paris, de Lê Corbusier. Foi o primeiro e mais puro exemplo dessa escola modernista no Brasil, inclusive, anterior a Brasília, que é de 1956’’, conta o arquiteto, completando que a Joaquim Franco foi erguida em 1952, para abrigar a família de Joaquim Franco, e só foi vendida pelos herdeiros há poucos anos.
  ‘‘Projetei uma casa, cujo proprietário foi fiel a toda estrutura proposta. Lá morou uma família feliz. Mas depois de muitos anos, ela ficou abandonada, sendo depredada por moradores de rua. A família preferiu vender e o novo proprietário a derrubou’’, resgata ele, dizendo que a Casa Joaquim Franco já estava na listagem de Unidade de Interesse de Preservação (UIP). ‘‘Se não existe incentivo para proteção do patrimônio, os prejuízos financeiros falam mais alto. A política municipal de proteção do patrimônio anda muito devagarinho, e deu margem para essas demolições. Há uma letargia’’, raciocina ele, que fará uma maquete da casa modernista para que ela não seja esquecida.
‘‘Se fosse uma
obra do Niemeyer’’
  Elgson Ribeiro Gomes, responsável pelo projeto de cerca de 40 imóveis em Curitiba, acredita que a classe e o trabalho dos arquitetos ainda não conquistaram representatividade na sociedade. ‘‘Imagine que eu sou o mais velho dessa linhagem do modernismo. Não temos voz porque a classe é nova. Acho que daqui a 15 anos estaremos mais fortalecidos e valorizados’’, pontua ele, com muita serenidade. ‘‘Se fosse uma obra do Oscar Niemeyer seria automaticamente tombada, porque ele conquistou notoriedade. Mas como era uma casinha velha, de um arquiteto daqui mesmo, não tinha tanta importância’’, desabafa.
  A casa Joaquim Franco fazia parte de um inventário da arquitetura moderna – que incluía cerca de 30 casas – levantado por um estudo profundo, coordenado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), em 2003, com o intuito de preservar o estilo modernista predominante no município, entre as décadas de 1930 e 1960. De acordo com a fiscalização da Secretaria de Urbanismo de Curitiba, o proprietário, cuja identificação não é revelada, derrubou a casa sem o alvará de demolição e por isso, foi notificado e multado em R$ 32 mil, valor que foi triplicado e será cobrado em dívida ativa. A ação judicial corre na Procuradoria Geral do Município.
  ‘‘É claro que a gente se surpreende com o fato de uma casa, recém-estudada, classificada como modernista e cadastrada como uma UIP, vir ao chão da noite para o dia. De qualquer forma, temos outros imóveis em ruínas, com mais tempo de vida do que esse’’, defende Suely Hass, arquiteta e assessora técnica da Secretaria de Urbanismo, dizendo que as penalidades para quem derruba uma UIP estão previstas no Código de Posturas (Lei de 2004), informando que existem quase 700 UIPs na cidade. ‘‘Para fazer a demolição, construção, reforma ou restauro de qualquer imóvel é preciso ter o alvará. E se tratando de uma UIP o auto de infração é ainda maior’’, explica ela.
  ‘‘O município não tem uma legislação de tombamento, nem uma listagem desses bens, temos uma legislação de preservação, que em contrapartida o proprietário tem benefícios fiscais e construtivos. É tudo de comum acordo com o dono do imóvel, mas caso ele descumpra as obrigações terá penalidades’’, esclarece Hass, acrescentando que não acha esse um ponto frágil da política de preservação do patrimônio edificado do município. ‘‘A briga agora será na Justiça, e no direito administrativo é previsto que se o município tem interesse de preservação, a legislação maior é contemplada’’.

mockup