'Sem lenço nem documento'
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domingo, 01 de novembro de 2009
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
''Sou um anarquista.'' Sem meias palavras, o equatoriano Javier Guerrero, 48 anos, recorda como sua luta contra o capitalismo transformou sua vida quando veio ao Brasil há duas décadas. Vivendo em Curitiba nos últimos dez anos, hoje ele milita por meio da arte, construindo mosaicos, que se tornaram tema de uma exposição na capital.
''Participei da juventude comunista dos 14 aos 18 anos, depois ingressei num movimento revoluncionário que ajudei a fundar, no qual militei por oito anos, inclusive com luta armada. Foi o período mais feliz da minha vida, até ser decretado preso político'', recorda o artesão, que chegou ao Brasil ''por acaso'' em outubro de 1989. ''Se fosse preso me matava, e como um amigo vinha para Curitiba, acabei me juntando a ele'', conta o anarquista, que viajou de trem e ônibus até chegar em terras paranaenses.
''Fiquei um tempo na Bolívia, onde vendia pulseiras de macramê para juntar dinheiro e continuar a viagem'', completou o artesão, que chegou ao País com apenas US$ 20 no bolso, ''sem lenço nem documento''.
''Fiquei na casa dos avós do meu amigo e trabalhei como pedreiro, pintor e até vendedor de planos de saúde, em Maringá (Região Noroeste), para não passar fome'', rememora Guerrero, que viveu ilegalmente depois que o visto de turista expirou, até ser anistiado pelo governo brasileiro há 12 anos. ''Foi o que me salvou, pois como tinha ficha na polícia do Equador, não conseguia me legalizar. Mas hoje vivo com um visto de permanência que só preciso renovar em 2011.''
Em duas décadas longe do Equador, Guerrero resolveu retornar à sua terra natal há cerca de dez anos, mas não se adaptou. ''Fui comprar um CD numa loja do bairro onde nasci e a vendedora me perguntou de onde eu era porque meu espanhol era muito bom. Mostrei a ela meus documentos equatorianos e de repente entendi que não pertencia mais àquele lugar'', relata.
Sabendo que a família está bem no Equador, ele também vive tranquilo em Curitiba, onde namora uma paraguaia. Guerrero já foi casado seis vezes, quatro delas no Brasil, e optou por não ter filhos. Por aqui, chegou a militar no PT, mas hoje se autointitula o ''anarquista do mosaico''.
''Sei que sou estrangeiro no Brasil, mas também me sinto assim no Equador. Minha pátria é a humanidade'', filosofa o artesão, que garante não ter se arrependido do rumo que a vida tomou com a condição de exilado político, já que não chegou a pedir refúgio para o governo brasileiro. ''Sou feliz, faço o que amo e tenho companheiros queridos nesta luta contra a podridão do capitalismo'', diz.


