Se existisse uma lista do tipo ''mãe que mais deve sofrer'', com certeza estariam nessa relação as mães de detentos, de adolescentes infratores, de lutadores de boxe ou de policiais militares. E mãe de árbitro de futebol? ''Elas sofrem, e como!'', garante o londrinense Héber Roberto Lopes, 33 anos, integrante do quadro de árbitros da Fifa.
No caso de sua mãe, Ursulina Roberto de Lima, 70, esse sofrimento é atenuado pelo fato dela não assistir televisão e, por consequência, não ouvir os impropérios que são dirigidos ao filho vindos das arquibancadas e nem as críticas dos comentaristas de arbitragem. Ela esclarece que não tem tevê em casa porque precisa seguir sua doutrina que veta a utilização deste veículo de comunicação.
Dona Ursulina é seguidora da Congregação Cristã no Brasil e frequenta a comunidade da Vila Casoni, onde mora, em uma casa humilde, mas muito caprichada, localizada a menos de 100 metros do Estádio da Vila Santa Terezinha palco de muitos jogos apitados pelo filho.
Ela faz trabalhos voluntários na Santa Casa e integra a ''Obra da Piedade'', irmandade da igreja que ajuda famílias necessitadas. ''Esse tipo de atividade é fundamental na idade dela, pois faz com que se mantenha ocupada e com boa sa© úde física e mental'', comenta Héber.
A mãe do mais famoso árbitro pé-vermelho mora somente com a filha. ''Somos uma família grande e cada um tomou o seu caminho. Mas ela não sente solidão porque a casa está sempre cheia dos amigos da Igreja'', relatou Héber, caçula de uma família de seis filhos.
Os três mais velhos receberam as iniciais do pai, Brasil. Chamam-se Barsilai, Belsasar e Bonifácio. Depois vieram Laurisvaldo e Leila (a única filha mulher), e por fim ''a rapa do tacho'', segundo a mãe. ''Fui nascer aos 44 do segundo tempo'', diverte-se Héber.
Mas logo a descontração dá lugar à emoção. Dona Ursulina mareja os olhos ao lembrar da fase difícil que viveu antes de Héber nascer. ''Falo com certeza que esse menino só veio mesmo por graça de Deus, foi um milagre. Eu era doente e fui tratada durante muito tempo pelo doutor Héber (Soares Vargas, psiquiatra), que me recuperou. Daí, disse pra mim mesma que se um dia tivesse outro filho ele ia se chamar Héber, que também é nome de um rei na Bíblia'', conta.
Em meio à dificuldade de criar os seis filhos, quando Héber tinha 10 anos surgiu uma notícia que encheu a mãe de preocupação. Veio do técnico de atletismo (esporte que o árbitro praticou por quatro anos) um bilhete dizendo que o filho precisaria passar por uma bateria de exames, pois apresentava sinais de sopro no coração.
''Levei-o ao cardiologista e o doutor me falou, 'olha mãe, não tem comprimido para dar para seu filho, mas deixa ele fazer o que quiser'. Aquilo apertou o meu coração e entreguei pra Deus'', disse ela, emendando que o desaparecimento dos sintomas, tempos depois, só pode ter sido obra divina.
Héber, sem querer discordar da mãe, acredita que a própria sequência de exercícios (continuou treinando) é que tenha o ajudado a superar a arritmia. ''O médico não ia ser louco de deixar eu correr se tivesse um problema mais grave'', afirma.

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