Sem identificação
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segunda-feira, 12 de março de 2007
Marcos Martins<br> Equipe da Folha 
A cena se repete no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas (HC) de Curitiba. Na agitação e correria do atendimento de emergência, além da saúde surge um outro problema com o paciente que acabou de chegar: a falta de identificação. São cerca de dois casos por mês, desafiando a equipe de Serviço Social do hospital. ''O grande problema é quando a pessoa está em coma. Caso contrário, após uma melhora nós fazemos uma entrevista e geralmente conseguimos dados como nome, onde mora e quem podemos contatar'', explica a assistente social Marilda Alves dos Santos, que chefia a equipe.
Antes da melhora do paciente, é feito um levantamento com as características físicas - altura, cor dos cabelos - e busca-se uma identificação junto às Unidades de Saúde. Caso não haja sucesso, outra opção é o contato com a FAS (Fundação de Assistência Social), que possui um cadastro de moradores de rua. Por último, recorre-se à imprensa, que divulga a situação e tenta localizar algum parente ou amigo. A demora na localização de um responsável pode durar até um mês. ''Dá bastante trabalho e não temos estrutura. Acabamos fazendo um papel de detetive sem experiência'', relata Marilda.
Outra opção é o recolhimento das impressões digitais, feita pelo Instituto de Identificação. Entretanto, a possibilidade de reconhecimento só existe se o paciente for paranaense.
No dia a dia, surgem também casos que esbarram na burocracia. Em fevereiro deste ano, um senhor que vivia em um quarto alugado foi levado por um vizinho a um posto de saúde após passar mal. Encaminhado para o HC, após a piora do quadro, ele faleceu. Apesar de possuir um documento, não pode ter a identificação confirmada. ''Ele só tinha o título de eleitor, que não é reconhecido como documento de identificação por não possuir foto'', recorda Marilda.
O problema é recorrente também no Instituto Médico Legal (IML), com cerca de 18 casos por mês. Alguns demoram semanas para serem identificados, outros acabam sendo enterrados como desconhecidos. ''Às vezes até temos o nome mas não encontramos a família'', explica o diretor do IML, Hélio Bonetto.
Na busca por uma pista vale tudo: uma cicatriz, tatuagem e até alguma aliança com um nome. ''Se não há sucesso, entre cinco e sete dias colhemos as impressões digitais e encaminhamos ao Instituto de Identificação'', explica a supervisora de necrotério, Adalzira dos Santos. Depois de 30 dias no órgão, um oficial de justiça comparece ao IML para fazer a conferência do corpo. É pedido então um alvará de sepultamento e o corpo é enterrado como desconhecido. Há também casos em que existe a identificação, mas ninguém comparece ao local para ''reclamar o corpo''.
Segundo números da Divisão de Serviços Funerários de Curitiba, em 2006 foram sepultados 104 corpos que não puderam ser identificados. Outros dois foram identificados mas não reclamados. Eles ficam enterrados por três anos em jazigos provisórios. Depois desse prazo, os restos mortais são encaminhados ao ossário do município.


