SEM DOR - Quando a tristeza se transforma em amor
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sábado, 13 de maio de 2006
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Andressa é uma garotinha encantadora, de 8 anos, que muito cedo conheceu o lado mais cruel da vida. Elza é uma mulher guerreira, que um dia se viu perdida, sem ter mais filhos para cuidar. Em dado momento estas duas trajetórias se cruzaram, transformando-se em uma única história de mãe e filha descobrindo uma nova forma de viver.
O encontro de ambas aconteceu no dia 13 de agosto do ano passado, quando fazia exatamente um ano que o filho da feirante Elza Moraes Honna, de 49 anos, havia morrido em um acidente de trânsito. O jovem de 18 anos ia de motocicleta para o Tiro de Guerra, ainda de madrugada, quando envolveu-se em uma colisão fatal, a poucos quarteirões de casa. Três anos antes, Elza e o marido haviam perdido o filho mais velho, então com 17 anos, vítima de uma distrofia muscular progressiva, que começara a se manifestar quando o garoto tinha 5 anos.
Foram anos de luta contra uma doença avassaladora, de muitos compromissos diários para que os seus efeitos sobre a saúde do pequeno Paulo fossem amenizados. De repente, a mãe que ganhou braços e coração fortes para ser o apoio dos filhos se viu perdida. ''Foi horrível, não dava vontade de entrar em casa, nem de trabalhar, nem de viver.''
Ela e o marido resolveram então adotar uma criança. Quando procuraram a Vara da Infância e da Juventude, pensavam em um bebê, como a maioria dos casais que opta pela adoção. Pela sua história, o casal foi colocado no início da fila dos candidatos a ter um filho. Quando um telefonema os avisou que havia uma criança de 8 anos à espera de adoção em um abrigo, resolveram ir conhecê-la, mesmo sabendo que ela era maior do que o filho que haviam idealizado.
''Foi amor à primeira vista'', conta Elza. E não esconde o apego cada vez maior por Andressa: ''Hoje eu e meu marido vivemos porque ela existe. A Andressa é uma filha maravilhosa, que não pede nada, só carinho e amor. Ela foi um presente de Deus'', diz a feirante, emocionada. A filha, por sua vez, revela que agora é mais feliz. ''Eu dormia na rua, sem colchão e sem coberta'', resume, enquanto o semblante ganha, por alguns segundos, um ar de tristeza. Porém logo em seguida Andressa volta a sorrir, para orgulho da mãe: ''Ela está cada dia mais bonita''.
A garotinha chegou à casa dos Honna em um sábado, véspera do Dia dos Pais. ''Meu marido não chegou a passar um Dia dos Pais sem filho. Já para mim, o Dia das Mães do ano passado foi uma tristeza. Só não foi pior porque os amigos do meu filho foram em casa.'' O próximo domingo, portanto, vai ter um significado especial para Elza. ''Para mim, vai significar a volta da alegria'', define.
Da emoção que a mãe sente a cada olhar, cada beijo, cada abraço de Andressa, ela tira lições: ''Acho que quando perdemos um filho, não devemos ficar só chorando, mas ir em busca das crianças que estão precisando de uma família. As pessoas só pensam em adotar bebês, mas hoje eu vejo que uma criança maior, que escolhe vir com a gente, pode nos dar uma felicidade ainda maior. No futuro, se eu puder, vou adotar mais um filho.''


