Sem dinheiro no bolso mas conhecimento na cabeça
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quarta-feira, 18 de abril de 2007
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Todo mundo está careca de saber que Educação no Brasil não é suficiente para a maioria, especialmente quando se fala de Ensino Superior. Além das concorridas vagas em faculdades e universidades, custa caro se formar em algum curso, seja em escolas públicas ou particulares. No entanto, há alternativas para estudantes que não querem desistir do sonho da graduação. A reportagem conversou com alunos da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, em Curitiba, para saber como eles fazem para estudar, mesmo sob dificuldades financeiras.
Louise Siedler Thamson, 17 anos, sempre optou pelo ensino público, porque a família não tem condições de arcar despesas com escolas particulares. Sabendo disso, a estudante tratou de sempre tirar boas notas, o que poderia ajudá-la posteriormente. ''Não tenho dinheiro para pagar uma faculdade particular. Então eu procurei o ProUni'', lembra. O ProUni (Programa Universidade Para Todos) é um programa do governo que concede bolsas integrais e parciais à alunos de baixa renda.
''Como eu tirei uma boa nota no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), selecionaram minha prova e me mandaram para fazer seleção na PUC'', conta Louise. Em seguida, após novos testes, a estudante cumpriu a parte burocrática da inscrição no programa, inclusive estar dentro da renda estabelecida pelo ProUni, que vai até R$ 502 por pessoa na família.
Louise foi aprovada e hoje não precisa pagar mensalidade para fazer Propaganda e Publicidade na PUC. A idéia da aluna, aliás, é buscar ainda outras facilidades para aprender mais sem custos. ''As pessoas não percebem muito as coisas, precisam ir mais atrás. Eu, por exemplo, quero fazer curso de italiano. Vi escrito embaixo do cartaz sobre o curso, escrito bem pequeno, que quem entrar para o coral não precisa pagar. Então, vou entrar para o coral'', diz.
Financiamento - Já Robiran do Santos, 24, não pôde se inscrever no ProUni, já que suas notas do ENEM, de 2001, são inválidas para o programa, criado em 2004. A alternativa então, foi buscar no Financiamento Estudantil (Fies), da Caixa. No entanto, antes mesmo de procurar essa opção, o estudante passou por várias dificuldades.
Robiran mora em Pinhais e sempre estudou em escola pública. No 3º colegial, foi selecionado para ganhar bolsa em um colégio particular. ''Tive que fazer entrevista e equivalência de notas, porque na época a média em escola estadual era 5,0 e em particular 8,0. Depois tive que fazer matérias de adaptação. O que contou na verdade foi que o pessoal da entrevista viram que eu estava empenhado. Eles disseram que muitos entram e desistem cedo'', conta.
Depois do colegial, Robiran tentou três vestibulares para Biologia na Universidade Federal do Paraná (UFPR) mas só conseguiu passar na PUC. ''Daí eu fui atrás, mas não tive nem o dinheiro da matrícula e da primeira mensalidade. Mas eu conversei com o pessoal da universidade, negociei. Tem que conversar, explicar a situação'', afirma.
Em seguida, Robiran teve que passar por todo o esquema burocrático, inclusive encontrar um fiador, já que a Caixa pede um, a exemplo de quando alguém vai alugar um imóvel. ''Não consegui no começo mas conversei e fui mostrando que eu estava interessado. Fui devendo, trabalhando, fazendo bicos aqui e ali e depois passei em um concurso. Hoje pago tudo em dia.''
Robiran ganha R$ 650 por mês como técnico administrativo e gasta quase tudo em cópias de livros, ônibus, alimentação e a mensalidade de R$ 360. Lazer, só no final de semana. Mesmo assim, o estudante, no último ano de licenciatura de Biologia, não perde o sorriso. ''A pessoa quando vai atrás consegue. Tudo depende do seu interesse. Não quero ficar como gente que conheço que desde a época do colegial continua trabalhando como metalúrgico. Nada contra a profissão, só quero uma situação melhor'', comenta.
Amanda Cristine Bini, 17, preferiu buscar uma opção de financiamento dentro da própria universidade. A PUC, assim como outras instituições de ensino, oferecem esse tipo de pagamento. A estudante de Ciências Contábeis paga metade do valor da mensalidade, no valor de R$ 311. A outra metade é custeada por um aluno já formado. Assim funciona o programa Bolsa Solidária.
''Se não fosse assim, não ia ter faculdade'', destaca. De acordo com Amanda, a papelada requerida pela universidade dá trabalho para juntar. Mas ela entende que isso favorece quem realmente não tem condições de pagar. ''É muito papel, tem que comprovar renda familiar, escolher um tutor. Demorei uma semana só correndo atrás desses documentos. Acho que pra quem tem dinheiro é difícil ser selecionado.''
Hoje, a aluna, que destina aos estudos os R$ 350 ganhos mensalmente como funcionária do Tribunal de Justiça, dá mais valor para a sala de aula. ''Tem gente que vem aqui, coloca a bolsa na carteira e sai. Eu, como pago, sei bem como é difícil para os pais pagarem a educação para os filhos'', completa.


