Abrir a porta do carro. Ceder o lugar no ônibus para uma pessoa mais velha. Não interromper conversa alheia. Respeitar o silêncio em teatro ou cinema. Não furar fila. Cumprimentar com um ''bom dia'', pedir ''por favor'' e dizer ''obrigado'', mais que normas de boa educação, essas pequenas ''gentilezas'' cada vez mais perdem espaço no mundo de stress e correria em que vivemos, como se não houvesse tempo para ser gentil. Apesar disso, fazer gentilezas corriqueiramente é compensador: ''A pessoa se sente bem, fazendo o outro feliz'', garante a psicóloga Lílian Flávia Tavares, de Londrina.
Não é à toa, por exemplo, que quando percorre o calçadão de Londrina, o professor aposentado Cláudio Muller, 59 anos, sempre cumprimenta conhecidos e mesmo desconhecidos. Ele dá atenção ao vendedor de frutas, que sempre está na esquina do seu apartamento, cumprimenta o velho amigo e pergunta sobre a mãe que estava doente e conhece todos os hippies que ficam no trecho em frente ao Teatro Ouro Verde. A todos dá um pouquinho do seu tempo e da sua atenção, seja apenas cumprimentando ou parando para conversar. Com um detalhe: presta atenção no que o outro fala e por isso sempre se lembra de detalhes.
''Acho que as relações humanas são a melhor coisa que pode haver. Se passo pela pessoa uma, duas vezes, na terceira já estou cumprimentando. Na quarta ou quinta vez que encontro já estou conversando. Tenho um filho que fala: ''Detesto sair com você, você cumprimenta todo mundo'', brinca. Para Muller, o mundo seria mais tranquilo se todos fossem gentis. ''Trato as pessoas como gostaria de ser tratado e as pessoas, quando tratadas gentilmente, respondem, no mínimo, com delicadeza. Você vive melhor praticando e recebendo gentileza'', completa.
A psicóloga Leila Cury Tardivo, professora docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), diz que dá muito prazer ser gentil, quando se faz isso de maneira espontânea. ''Significa que a pessoa está de bem com a vida e com ela mesma.'' Segundo ela, a capacidade de preocupar-se e se responsabilizar pelo outro indica maturidade e equilíbrio. ''A pessoa gentil não é santa nem perfeita, mas normal, madura. Não se sente roubada se der algo de si para o outro já que o dar é, em si, a recompensa.''
A consultora em etiqueta Elizabete Côrtes, de Londrina, afirma que gentileza ''nunca sai de moda'' e que ser gentil é ''um algo mais'' que a boa educação. ''É tratar o outro como gostaria de ser tratado, independente da classe social'', afirma.
O prazer de ser gentil, segundo Lílian, é aprendido na infância, com a família, com a valorização de determinados comportamentos. ''Se o pai ensina, por exemplo, o filho a dar o lugar ao amiguinho e elogia a atitude, está incentivando, valorizando esse tipo de comportamento e ensina o filho a ficar feliz ao ver o outro feliz'', exemplifica.
Citando B.F.Skinner, um dos grandes estudiosos da psicologia comportamental, Lílian explica que esse tipo de amor se chama ágape, que é o ficar feliz em fazer bem aos outros, fortalecendo o grupo em que se vive. Por outro lado, há grupos que não valorizam a gentileza. ''Em uma comunidade mais violenta, por exemplo, ser gentil não é valorizado. Mas de maneira geral, o brasileiro é um povo gentil'', completa.
A verdadeira gentileza deve ser espontânea. ''Deus nos livre de seus simulacros educação ególatra, generosidade calculada, etiqueta superficial'', diz o psicoterapeuta italiano Piero Ferrucci, em seu livro ''A Arte da Gentileza'', lançado pela Elsevier Editora. Com prefácio do Dalai Lama, a obra garante que as pessoas gentis são mais saudáveis, amadas, felizes e produtivas, além de viverem mais e terem mais sucesso.(com Agência Estado)

mockup