SEGREDOS DO UNIVERSO - Da beira do Jacutinga para o mundo
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de novembro de 2007
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
A história que você vai ler agora até podia servir de roteiro para um daqueles filmes americanos que mostram casos de vitória, de superação. No entanto, a vida de Augusto Daminelli ainda não chegou às telonas, mas não será surpresa se um dia uma turma de cineastas oriundos de Hollywood desembarcar em Ibiporã (14 km a leste de Londrina), com parafernália de filmagem nas malas.
Astrônomo dos mais renomados do mundo, Daminelli nasceu em um pequeno sítio, de três alqueires, na beira do Ribeirão Jacutinga, que corta a cidade vizinha de Londrina. Foi menino do tipo que soltava pipa, andava descalço, nadava em córregos e ajudava o pai, ao lado dos 10 irmãos, na lida da lavoura.
Viveu, como ele mesmo diz, uma infância pobre e cheia de fartura. No pequeno sítio, tudo brotava com facilidade, coisa comum nesta terra vermelha. Naquele pequeno pedaço de chão tínhamos de tudo um pouco: arroz, feijão, algodão, milho, batata, hortaliças, porco, vaca. Só não existia dinheiro, era tudo na base do escambo. Imagina, já estávamos no século 20 e vivíamos como se fosse a Idade Média. Meu pai disse que o mundo estava acabado quando, pela primeira vez, vendemos alguma coisa do sítio em troca de dinheiro, recorda Daminelli, deixando transparecer no olhar uma pontinha de saudade.
Dinheiro para um mês de pensão
A energia elétrica ele só conheceu aos 12 anos de idade, quando foi para um seminário em Assis (interior de São Paulo) onde fez os estudos para padre. Ainda em Ibiporã uma freira percebeu que o rapazote levava mais jeito para trabalhar com a caneta do que com a enxada. No entanto, antes de chegar a vestir a batina, ele voltou para a casa dos pais, aos 18. De volta à roça, descobriu que queria ser cientista.
Com 20 anos e um jeitão de matuto, desembarcou na capital paulista. A meta era cursar Física na Universidade de São Paulo (USP). No bolso, o dinheiro para um mês de pensão. Trocou a lavoura pela maior cidade do Brasil. Pela primeira vez descobria um mundo novo.
Com o objetivo de pagar um cursinho preparatório para o temido vestibular foi trabalhar na indústria metalúrgica. Ajudava a fabricar arquivos de aço. Trabalhava o dia todo e estudava à noite. Dormia cinco horas por dia. Foi aprovado no primeiro vestibular. O segredo? Otimizar o tempo de estudo. Eu ia para a fábrica decorando os verbos ingleses dentro do ônibus. Um na ida outro na volta. Ao fim de um ano eu já sabia quase todos, revela.
Daí em diante o ibiporãense estava, definitivamente, no mundo das ciências. No primeiro ano de faculdade já virou professor, foi lecionar em escolas públicas. No segundo ano ganhou uma bolsa de estudos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Essa fundação me deu muito mais do que uma bolsa, ela pagou toda a minha carreira. Isso acontece em São Paulo com toda pessoa definitivamente interessada em seguir a carreira científica, revela.
Arrebatado pela poeira das estrelas
No entanto, a verdadeira paixão de Daminelli, daquelas arrebatadoras, ainda estava por acontecer. Era a astronomia. Ele foi apresentado ao mundo das estrelas por um professor que deu palestra para os estudantes de Física da USP. Desde então, nunca mais parou de olhar para o céu.
Eu imaginava que todos os astrônomos já tivessem morrido. Pensava que as estrelas só estivessem no céu. Mas aquele professor me disse que somos poeira de estrelas. O meu Carbono é feito por uma estrela, assim como o Ferro o Oxigênio e outros elementos. Essa intimidade cósmica, a nossa ligação com as estrelas me encantou, recorda o astrônomo.
O significado do conceito poeira de estrelas ele explica dizendo que o universo se formou basicamente de dois elementos químicos, Hidrogênio e Hélio que são os mais leves , e, de imediato, se resfriou. Só quando nasceram as estrelas, que têm um coração muito quente é que esses elementos começaram a ser transformados em outros átomos. O único lugar que pode produzir um átomo de Carbono, por exemplo, é o coração de uma estrela maior do que o sol. Hoje em dia, todos os elementos químicos que conhecemos são feitos por es-trelas, explica o cientista.
Foi a partir daí, decidido a estudar grandes astros, que ele, em 1997, descobriu a verdade sobre a Eta Carinae, estrela que ele considera a Miss Galáxia. A descoberta rendeu, definitivamente, fama mundial ao filho do Norte do Paraná. Mas isso merece um capítulo à parte (leia box nesta página).
Astrônomo recebe comenda
Augusto Daminelli foi o segundo cidadão de Ibiporã a receber a Comenda Pax et Labor, um reconhecimento para filhos da terra que alcançaram destaque nacional ou internacional. O primeiro a receber tal título foi o artista plástico Henrique Aragão.
De volta à sua cidade natal para receber a homenagem, ele aproveitou para matar as saudades do seu chão e rever familiares. Foi nesta oportunidade que ele concedeu entrevista à FOLHA.
Sobre a homenagem, ele se declarou muito agradecido.
Não me considero uma pessoa especial. Sou apenas um jogador que marcou seus gols e agora está come-morando, comentou.
(W.S.)


