Prestes a completar 90 anos, Helena Ferraz de Carvalho, a Lenita, não gosta de ser chamada de idosa. ''Não gosto dessa palavra, idoso é triste. Eu não me sinto idosa'', explica Lenita, que comemorou este mês o aniversário com festa que teve até uma banda chamada Telhado Branco, nome que faz referência aos cabelos grisalhos dos músicos. Ela conta que sempre gostou de festa, como sua mãe, que viveu até os 99 anos. ''Minha mãe me disse que depois dos 90 anos é que sentiu a velhice'', conta.
Para Lenita, uma das formas de conservar a juventude é manter-se em constante atividade. ''Quando está muito frio e eu não posso sair, tenho que ficar em casa de castigo, aí é que eu me sinto velha'', afirma. Até hoje Lenita administra a própria vida com independência. ''Não gosto que ninguém se meta nas minhas coisas. Quanto mais você se abandona para os outros tomarem conta, mais velha você fica'', ensina.
Lenita também mantém um círculo grande de amigas com as quais joga tranca três vezes por semana. E não abre mão de ter companhia para almoçar - uma filha e um dos netos sempre a acompanham. Do grupo das amigas de jogo, quatro têm mais de 90 anos, e a ''mais moça'', segundo Lenita, está para completar 80. ''O jogo é uma terapia, fazemos pelo encontro. Cada dia é na casa de uma, aí você tem que se arrumar, arrumar a mesa, tudo isso contribui para a gente viver'', explica. E a conversa é sempre animada, diz. ''É novidade pra cá, novidade pra lá. E é proibido falar sobre remédios, doença e receita de doce. As pessoas ficam velhas quando se abandonam à velhice'', observa.
Sempre alegre, Lenita acredita que o estado de espírito é seu principal atrativo. ''Não sinto meus 90 anos. Sou uma pessoa alegre por natureza. Isso é que faz juntar as amigas em volta de mim. Minhas filhas e netos também me dão muita assistência e isso me deixa muito feliz'', afirma. Diante das histórias de vida de outras pessoas da idade dela, Lenita considera-se privilegiada. ''Falta amor. O mundo está muito materialista, cada um está preocupado apenas com a sua própria vida. Até os filhos são esquecidos, não é só velho não. Antes existia respeito, hoje é uma palavra fora de moda'', lamenta. (D.R.)

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