São Paulo - Dizem que o primeiro carro é como o primeiro amor. Ninguém esquece. Quem está prestes a completar 18 anos invariavelmente sonha com um amor de motor potente, 16 válvulas, ar condicionado, trio elétrico, direção hidráulica e um sem-número de opcionais de fábrica. Jean Strifezzi, no entanto, tinha uma paixão bem diferente desde os 15 anos. Seu alvo era pequeno, redondinho, azul calcinha, barulhento, corroído pelo tempo e pela ferrugem.
''Comprei meu Fusquinha antes mesmo de tirar carta de motorista'', diz o garoto, hoje com 18 anos. ''Ele é de 1969, estava todo caído, bem acabado mesmo. Mas me apaixonei por ele. Passei os últimos anos fazendo reformas. Até o fim do ano, ele vai estar lindão.''
Strifezzi não abre mão do Fusca. Enquanto não conserta o seu, anda só com o de seu pai, um 1974 com pneus de faixa branca. E não é o único. Por toda São Paulo, é cada vez mais fácil encontrar jovens que deixaram a modernidade de lado e andam orgulhosos por aí exibindo seus Fuscas antigões. Os bicolores - chamados de saia-e-blusa, por ter combinação de cores bem típica dos anos 50 -, com faixa branca nos pneus, são os mais populares
''Todo mundo pára na rua quando vê um Fusca bem cuidado, de colecionador'', diz Andreas Wolfsohn, presidente do Fusca Clube do Brasil e dono de dois modelos. ''Chama muita atenção. A garotada anda procurando porque é um carro acessível, não precisa de muita manutenção e tem aquela aura de antigo.''
O administrador de empresas Tiago Bordignon, de 27 anos, trata seu Fusca 1962 como parte da família. Entre os cuidados diários, dignos de mãe coruja, ele não deixa o carro estacionado na rua à mercê do sereno, não entrega a chave de jeito nenhum para manobrista e evita sair em dias muito chuvosos. ''Sou chato mesmo'', diz ele, que comprou o carro há cerca de um ano e meio por aproximadamente R$ 7 mil. ''Tenho um outro carro, um Fiat Strada, para usar durante a semana. Me preocupo demais com meu Fusca para ficar caindo em buraco, essas coisas.''
Como outros amantes da ''baratinha'', Bordignon tenta manter seu carro o mais retrô possível. O banco é de couro branco, o forro do teto está meio desgastado e o pneu ganhou uma faixa de vinil branca para ficar fiel aos anos 60. ''Carros normais, esses de hoje, são cheios de frescuras. O Fusca não, ele é um carro de verdade'', diz. ''Dá problema, a direção é dura, faz barulho. Por isso que eu adoro.''
Bordignon nasceu na época em que o Fusca era paixão nacional. Até a década de 80, o automóvel era oficialmente denominado Volkswagen Sedan nos registros dos Detrans. Era moda na época rebaixar a suspensão e substituir rodas originais por outra de um veículo igualmente popular, a Brasília.
A produção em série, no entanto, teve início em 1938 - o desenho foi encomendado por Adolf Hitler, que instruiu seu engenheiro, Ferdinand Porsche, de que o carro deveria parecer com um besouro - em inglês, beetle, como o carro é conhecido no exterior. O Fuhrer também teria dado instruções para que o Fusca tivesse espaço para dois adultos e três crianças - uma família padrão alemã -, já que ''não queria separar as crianças de seus pais''. Outra versão da história diz que Hitler queria um veículo capaz de carregar três soldados e uma metralhadora.
Quando Bordignon completou seis anos, em 1986, o Fusca deixou de ser produzido - algumas séries especiais foram lançadas desde então, completando uma produção recorde de 21 milhões de unidades fabricadas no mundo todo. Hoje, apesar de ser um dos usados mais procurados, os preços podem não ser dos mais convidativos. Dos primeiros que foram montados no País, a partir de 1953, a versão com vidro traseiro bipartido pode chegar a R$ 30 mil.
Um carro chamado Cridê - ''Mesmo quem paga barato investe tanto no carro que acaba saindo mais caro do que um 0 km'', diz o publicitário Roberto Giglio, de 43 anos, há 22 dirigindo um Fusca 1969 saia-e-blusa. ''Eu mesmo nem sei quanto já gastei no meu. E nem ligo. O Fusca não é só meu carro, é meu bicho de estimação.''
A paixão é tamanha que seu besouro de estimação tem até nome. ''Chama-se Cridê, porque quando fui apresentá-lo para a minha mãe estava tocando aquela música Televisão, dos Titãs'', diz Giglio. ''Ô Cride, fala pra mãe.... Aí pegou.'' Entre os cuidados dispensados, o publicitário nunca deixou ninguém dirigir seu Fusca. Cridê também só sai de casa aos domingos. Não pega sol forte nem chuva. ''Vira e mexe alguém me pergunta se eu não quero vendê-lo. Nem quero ouvir a proposta'', conta. ''Tenho mais ciúme do Cridê do que da minha própria mulher.''

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