Há dez anos Curitiba tinha dez salas de cinema em funcionamento espalhadas pelas ruas da cidade. De lá pra cá, os cinemas de rua da Capital foram fechando as portas um a um. A última grande sala de exibição a encerrar suas atividades foi a do Cine Plaza, fechado oficialmente no mês passado. Resta o Cine Luz, ligado à Fundação Cultural de Curitiba, que também administra a Cinemateca.
  Para Zito Alves Cavalcanti, de 82 anos, que é do tempo em que ‘‘as pessoas iam ao cinema como iam à igreja na missa das quatro da tarde’’, o fim do Cine Plaza é motivo de tristeza. ‘‘Ajudei a montar a cabine de projeção, era meu xodó, tinha uma ligação sentimental’’, explica. ‘‘Quem sabe não volta a funcionar? Se eu tivesse dinheiro comprava o Cine Plaza’’, afirma.
  O prédio que abrigava o cinema desde 1964 pertence à Associação dos Servidores Públicos do Paraná (Aspp), que só conseguiu retomar a administração do espaço por via judicial. Segundo o presidente da Aspp, Brasil Paraná de Cristo, o cinema era a ‘‘menina dos olhos’’ dos associados e a sala só foi fechada por causa do alto custo de manutenção.
  ‘‘Tinha o amor que a gente criou por aquilo durante anos e custou dois meses de assembléias para chegar a esse ponto. Mas custa muito dinheiro e temos que zelar pelo patrimônio público’’, justifica. De acordo com o presidente da Aspp, o antigo administrador foi o responsável pela degradação do cinema. ‘‘Ele nos entregou os ossos do Cine Plaza. Levamos 15 anos para recuperá-lo na justiça’’, conta. O prédio foi colocado à venda e está em negociação com uma incorporadora de imóveis. No contrato, deverá ser incluída como condição de venda a construção de uma sala de projeção no novo edifício, segundo Paraná de Cristo.
  Auxiliar de projecionista do Cine Broadway em 1940, quando tudo era feito manualmente, Cavalcanti passou a trabalhar em quase todos os cinemas que Curitiba teve desde então, e sente falta do ‘‘tempo de ouro’’ da sétima arte. ‘‘Tenho saudade das matinês daquela época. Era tão seguro e natural que as crianças iam em bando. A beleza do cinema era a matinê das duas horas. Quando estavam muito agitadas, tirava-se o som do filme e elas iam se acalmando’’, lembra. Para Cavalcanti, o cinema já foi mais popular que hoje. ‘‘Era uma paixão, programa de família. Sala com 3 mil lugares lotava.’’
  O deputado federal Reinhold Stephanes, de 66 anos, lembra que ir ao cinema era um programa obrigatório. ‘‘Não tinha videolocadora, canais alternativos em redes de televisão de sinal fechado, não tinha outros tipos de diversão. Era uma coisa interessante, até para namorar era o melhor local’’, conta.
  Da geração que só conheceu cinema nos shoppings, o estudante Diogo Augusto Franzin, de 16 anos, não tem o hábito de sair de casa apenas para assistir a um filme em cartaz. ‘‘Só de vez em quando, é bem raro. Geralmente venho comer, fazer outras coisas e se sobrar tempo vou ao cinema’’, explica.
  Para o advogado Diego Henrique de Oliveira, de 23 anos, que freqüentou os cinemas de rua quando era criança, o deslocamento das salas para os shoppings não mudou muita coisa e facilitou o acesso. ‘‘É melhor porque a gente já vem aqui por causa das lojas. Ficou mais cômodo e continua sendo cinema do mesmo jeito’’, avalia.

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