‘‘Saudade da minha terra’’
Emília BelinatiLondrina é uma cidade marcada emocionalmente por caminhos, ruas e estradas. Foi numa picada no meio da floresta que os primeiros desbravadores chegaram aqui em cima de burros e cavalos. A picada se alargou, virando uma estradinha danada de boa para atolar os poucos automóveis e as jardineiras. E as ruas foram sendo traçadas pela Companhia de Terra, que projetava uma cidade para, no máximo, 30 mil habitantes. Meio século atrás, era difícil para a minha localização de menina indicar o sítio onde nasci. Eu dizia... é para os lados da Aviação Velha, na estrada de terra que começa lá no fim da Higienópolis e que vai para o distrito de São Luís. Naqueles anos, Londrina nem tinha zona norte e zona sul, havia o centro, o lado de baixo da linha do trem e um monte de sítios e fazendas espalhados em volta da cidade e espremidos entre a mata que ainda resistia à derrubada.
Na verdade, para chegar na minha casa tínhamos que andar um outro tanto a mais. Na Aviação Velha, a gente pegava uma estradinha secundária, atravessava mais 3 quilômetros, descia uma ribanceira e lá estava o pequeno sítio de apenas 8 alqueires, mas com uma bela produção de verduras e legumes, que meu pai levava para vender de carroça. Quantas vezes acordei de madrugada para, toda orgulhosa, acompanhar meu pai, o Sebastião Carioca, na entrega dos produtos na Pensão dos Viajantes ou no Hotel Triunfo.
Lembro de percorrer esta mesma estrada na carroceria de um caminhão junto com os outros alunos da escola que ficava lá mesmo no Patrimônio do Espírito Santo, para ir ao desfile de Sete de Setembro na Avenida Paraná. Nós as meninas íamos de saia pregueada branca, blusa branca, meia branca e tênis branco. Lindas demais, não fosse o fato de chegarmos na cidade vermelhas de pó. Desfilávamos de peito estufado, cheias de dever cívico, e a cidade parava para ver. A recompensa, oferecida pela diretora da escola, era sanduíche de mortadela, tubaína e uma maçã. Ainda hoje como mortadela com a boca cheia de saudades da infância. Às vezes, quem dava carona na ida ou na volta da escola era o Álvaro Godoy. Eu subia feliz da vida no Fordeco, aliviada que a caminhada de 12 quilômetros daquele dia seria encurtada.
As ruas da cidade eram boas mesmo para atolar não só as rodas, mas também os pés da gente, quando chovia. Para ir ao culto, lá na Avenida Rio de Janeiro, na Igreja Metodista, levava dois pares de sapato. O par limpo substituía, na porta da igreja, o outro coberto de pó ou de barro, dependendo do sol ou da chuva. A Avenida Paraná era o máximo da elegância com as Casas Fuganti, a Confeitaria Cristal, a Batavo, Móveis Cimo e as Pernambucanas. A Rua Duque de Caxias era o resumo da praticidade, lá tinha de tudo: relojoaria, selaria, armarinho, bazar, até a Folha de Londrina.
A voz do meu pai contando para a família que o governo iria abrir uma estrada para Curitiba também não me sai da memória. Ele havia lido a notícia nos jornais velhos que pegava com os comerciantes, no troco das vendas. Aprendeu a ler assim, tateando jornais de uma semana atrás e já se contaminando do bom vírus reivindicatório que sempre caracterizou Londrina.
Quando adolescente, ao mudar-me para a Vila Higienópolis, Londrina já era outra. O crescimento acontecia da noite para o dia. Ruas iam surgindo, mais e mais, e as velhas mudavam de sentido, de nome, eram alargadas. Naquela época, o meu lugar preferido ficava na Rua Quintino Bocaiúva, era o Colossinho, onde chegava de madrugada para treinar basquete antes de ir para o colégio. Quantas vezes, minha mãe, Dona Cândida, zelosa pela filha, foi minha companhia para atravessar a cidade no amanhecer de Londrina.
A Rua Pernambuco foi o palco do meu primeiro emprego, como secretária do saudoso neurologista Benedito Rocha Campos. Lá também conheci meu primeiro amor, o então radialista e apresentador de tevê Antônio Belinati, que estava levando o pai, seu José, para uma consulta. Enfim, poderia passar horas inteiras falando de cada recanto da cidade. Das avenidas e ruas que vi surgindo, bem de perto, acompanhando, já casada, o Belinati nas visitas e comícios.
O orgulho que sinto de Londrina só fez crescer a vida inteira. Se espichou junto com a cidade. Jamais vou esquecer da emoção que senti quando inauguramos os Cinco Conjuntos, tão polêmico na época e hoje tão festejado. Ou quando o Belinati fez surgir o Calçadão. Outras horas passaria falando destes sentimentos ainda tão vivos.
Aliás, recentemente, tive esta oportunidade ao visitar as reformas do Museu Histórico Padre Carlos Weiss, que vai ficar maravilhoso.
A Londrina de hoje, que sempre me tira o sono como uma filha ainda pequena, me traz grandes responsabilidades e tantas outras alegrias. Estou sempre pensando nas ruas que ainda teremos que pavimentar, nas avenidas que querem nascer, nas rodovias que precisam ser duplicadas. E tantos outros caminhos que ainda precisam se alargar, o da Segurança e da Saúde principalmente. Mas assim como cada dona-de-casa comemora o asfalto que tem chegado à sua porta, também vibro com as conquistas de tanto trabalho: o Siate, a Universidade Estadual de Londrina no ranking das primeiras do país, o PAI, o esgoto chegando a quase todo município, as escolas estaduais sem problema de vagas, as indústrias e os empregos se multiplicando, o comércio forte e, acima de tudo, a beleza que está nossa Londrina.
Quando penso no futuro, vislumbro os caminhos que certamente nos trarão mais desenvolvimento. Infovias, teleportos, fibras óticas, universidades virtuais, mais indústrias, tudo o que firmará Londrina como esta cidade que nasceu para ser feliz. E o essencial: cada londrinense podendo desfrutar do novo milênio como cidadão de verdade, porque haveremos de vencer as dificuldades. O futuro já está quase batendo na porta e nós não ficamos simplesmente esperando por ele. Estamos com o pé na estrada, trabalhando. O mais importante, para mim, é que jamais percamos a coragem dos pioneiros, porque difícil mesmo é abrir picada com facão no meio da mata fechada.
- EMÍLIA BELINATI é vice-governadora do Paraná
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