Um terreno de 232 mil metros quadrados, muito espaço verde, equipamentos de madeira com escadas e rampas, troncos de árvore, redes, cama elástica, piscina, áreas cobertas climatizadas e equipadas com camas, colchões e cobertores são alguns dos itens que fazem parte da estrutura montada pelo casal Ana Seles e Milan Starostik para receber os 13 chimpanzés abrigados, hoje, em seu Instituto Conservacionista Anami (nome criado a partir da junção dos nomes do casal Ana + Milan), situado em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.
A história do Instituto, mais conhecido como Santuário Anami, tem origem no amor que Milan e Ana sempre sentiram pelos animais, muito antes dos anos de 1950, quando vieram da Tchecoslováquia. Na Fábrica de Plásticos Providência, de propriedade do casal, chegaram a montar um mini zoológico, até que o espaço ficou pequeno e, há cerca de cinco anos, eles adquiriram a área vizinha, onde moram e onde funciona o Anami.
Milan conta que chegou a ter dois chipanzés no tempo da fábrica, Caco e Kika, que, por falta de espaço, foram transferidos para outro santuário, do Projeto de Proteção dos Grandes Primatas (GAP), em Sorocaba, no interior de São Paulo. No mini-zoo, a maior parte era de aves. ''Eu comecei pegando araras, tucanos, que eram apreendidos pelo Ibama'', conta.
O amor pelas aves continua. No santuário há mais de 200, entre araras, tucanos, papagaios de cara-roxa, de peito-roxo, pagagaios australianos (eclétos), cisnes e flamingos, só para citar algumas das espécies. Todas vivem em grandes áreas projetadas para parecer o mais próximo possível do meio natural. Há, ainda, cerca de 20 veados de duas raças diferentes - gamo brasileiro e veado europeu -, seis cachorros, mais um casal de macaco-aranha (natural do Amazonas) e dois macacos-prego, esses últimos encaminhados pelo Ibama depois de serem apreendidos em sitação ilegal em Foz do Iguaçu.
Mas o centro das paixões são mesmo os chipanzés, todos provenientes de circos, onde, segundo Milan, viviam confinados em gaiolas. ''Alguns não conseguiam nem ficar de pé'', lembra. O primeiro a chegar foi Jonny, um chipanzé preto e comilão, que não hesita em reclamar alto quando quer sua mamadeira. Ao ver Jonny sozinho, já em Curitiba, Milan e Ana ficaram com pena. ''Ele ficava muito triste, daí eu trouxe o Mateus'', conta ele, que logo aumentou a turminha com outros nomes: Lucas, Carol, Caíque, Dinho, Maria, Chico, até chegar aos atuais 13 chipanzés.
Alguns deles vieram de um sítio, em Cotia (SP), mantido pelos proprietários do extinto Circo Garcia. ''Eles ficavam fechados, em gaiolas. Por causa dos chipanzés, acabei comprando o sítio todo, com tudo dentro'', diz Milan. Todos, no entanto, vieram de situações de maus tratos, ou viviam em zoológicos, como o zoo particular Paraíso Perdido de Fortaleza (CE), que foi interditado pelo Ibama ou estavam em circos, mas não se apresentavam mais. O que acontece, segundo Milan, é que após os oito anos de idade os chimpanzés não obedecem mais os treinadores e esses tentam se defazer do animal.
Há 10 meses, chegaram os últimos cinco animais, todos adultos e de grande porte. ''Muitos deles nunca tinham visto o céu, nunca tinham pisado na grama'', conta o administrador do santuário, Tadeu Grassi. Por causa disso, Maria, uma chimpanzé de quase dois metros de altura, até hoje ainda não teve coragem de andar na área aberta do cercado.
''Nós queremos dar o que eles nunca tiveram, liberdade, mesmo que limitada, comida, limpeza, uma vida digna. Eles podem ficar na sombra, no sol, brincar, fazer o que quiserem'', diz Ana, lembrando que a intenção é interferir o menos possível na vida deles. O carinho dos funcionários pelos bichinhos muitas vezes acaba sendo mais forte. ''Eu dou a comida na boca porque gosto de tratar. Se fosse por mim, eu ainda dava na mamadeira'', diz Shirley Camargo, que junto com Neila Terezinha é responsável pela alimentação dos chinpanzés.
A rotina começa às 7h30, quando é servida a primeira refeição: mingau com aveia batido, um dos pratos preferidos. Ela conta que a alimentação básica são frutas, de todos os tipos, que ficam à disposição o dia todo em vários pontos dos cercados, mas eles ganham também iogurte, vitaminas, além do feijão, arroz e carne de gado ou frango duas vezes por semana. Tem até sobremesa, sempre variável: sagu, arroz doce, gelatina, canjica, sorvete. Com tanta comida, a higiene é fundamental: duas vezes por semana eles recebem suas escovas de dente para a limpeza bucal.

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