SANTA QUITÉRIA: espírito de cidade do interior
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segunda-feira, 14 de maio de 2007
Fábio Galão<br> Equipe da Folha 
Não deve existir termo mais adequado do que ''comunidade'' para descrever o bairro Santa Quitéria. A relação íntima e a colaboração entre os moradores fazem do local uma das regiões mais acolhedoras de Curitiba. É uma cumplicidade que remete às cidades interioranas.
''Há muitas pessoas de idade no Santa Quitéria. É um bairro acolhedor, tranquilo. Tem um espírito de cidade do interior, onde todas as pessoas se conhecem'', opina o padre Everson Damian Lunardi, vigário da Paróquia Santa Quitéria.
O aposentado Feliciano Scussiato, de 85 anos, mora no Santa Quitéria desde 1947. Ele aponta que o sentimento comunitário acompanhou toda a história do bairro e foi responsável pelo desenvolvimento da região. ''Tudo no bairro, a igreja, a escola, a creche, foi feito com ajuda da comunidade. Teve uma época em que a população começou a pedir uma creche. Nós andávamos pelo bairro e perguntávamos: 'Você pode ajudar com o quê?'. A pessoa respondia: 'Posso dar um saco de cimento'. A coisa avançava e a creche está aí até hoje. Foi no peito e na raça, como tudo aqui. Não esperamos ajuda de governo'', diz o aposentado.
Nesse processo, o Santa Quitéria se desenvolveu muito além do bairro que Scussiato encontrou quando se mudou para a região. ''Quando eu cheguei aqui, já havia umas 15 casas. Existiam os loteamentos, mas as ruas não tinham asfalto, o bairro não tinha nada. Um senhor, Francisco Pereira de Azevedo Macedo, tinha uma chácara lá embaixo, além da (Avenida) Artur Bernardes, e era dono das propriedades. Ele começou a lotear na década de 30. Da (Rua) Ulisses Vieira para baixo era tudo lavoura, onde os italianos plantavam milho, feijão. Eles também criavam porcos. Havia uma região onde era despejado o lixo e o pessoal soltava os porcos ali'', lembra Scussiato.
Anos depois, a área do lixão seria usada para construir a Igreja de Santa Quitéria. ''Era um 'mosqueiro' que ninguém aguentava. Eu enchi um saco com moscas e reclamei no jornal. Aí conseguimos tirar o lixão daqui'', afirma o aposentado. ''O nome do bairro veio da história de uma senhora, descendente de escravos, que tinha uma imagem de Santa Quitéria. Ela morava numa área valorizada e o Macedo trocou um terreno com ela. Ela veio morar aqui e criou uma capelinha com a imagem da santa, que hoje está na igreja do bairro.''
O padre Lunardi conta que na década de 50 os padres orionistas se instalaram no Santa Quitéria. O sentimento de cooperação dos religiosos complementou o espírito comunitário do bairro. ''Dom Orione nasceu na Itália, em 1872. Antes mesmo de ser padre, começou a trabalhar com crianças abandonadas. Os padres orionistas, portanto, têm essa preocupação social'', explica o padre.
Com a colaboração da comunidade, o bairro foi se desenvolvendo: no Santa Quitéria, surgiram o Seminário dos padres orionistas (que atuam no Pequeno Cotolengo, entidade que acolhe pessoas deficientes abandonadas), um time de futebol amador, escolas. ''O bairro foi crescendo e começaram a surgir necessidades, como o Cotolengo, o colégio, a creche, o seminário. O projeto inicial da Paróquia Santa Quitéria nunca foi terminado porque as áreas ao redor foram usadas para a construção, aos poucos, dessas estruturas de que o bairro precisava'', diz o padre.
A ''batalha'' mais recente foi a construção do posto de saúde do bairro, que, após anos de reivindicações, está sendo concluída pela prefeitura e pelo governo do Estado. Mesmo com tantas transformações, o Santa Quitéria continua sendo uma reserva de tranquilidade na metrópole.
''Aqui nunca foram admitidas edificações de três andares em diante. Não tem tanto movimento, tanta gente circulando. Muita gente que vem do interior para Curitiba procura justamente o Santa Quitéria'', afirma Scussiato, que aponta que a região é privilegiada no quesito segurança porque é sede de um Batalhão da Polícia Militar e de um posto policial.
''Se comparar com outros bairros, Santa Quitéria é seguro. Pode ver nos jornais, é muito raro acontecer alguma coisa grave aqui'', considera José Paulo Dobrowolski, de 48 anos, dono de uma eletrônica e morador do bairro desde 1991.
Natural de Ponta Grossa, Dobrowolski residia antes no Centro de Curitiba. Hoje, diz que não deixa o Santa Quitéria. ''Na minha opinião, a única coisa que falta ao bairro é um banco. O resto, tem tudo. Só sai daqui mesmo quem precisa sair'', diz o comerciante.


