A força dos braços e do tronco conduz o instrumento em gestos largos e firmes. O tato, e não mais que o tato, é suficiente para que os dedos extraiam a sequência de notas que vai invadindo o estúdio de 10 metros quadrados.
Os olhos do sanfoneiro não mudam o foco. Continuam a mirar os interlocutores com uma neutralidade perturbadora. Expressam orgulho com o próprio desempenho e remetem a algo parecido com uma auto-observação. É Juliano De Mari aos 67 anos, um dos músicos que comandavam o Conjunto Regional da Rádio Londrina nos anos 50 e 60.

Nascido no coração do estado de São Paulo município de Macatuba o hoje dono de estúdio, função que é mais hobby que ganha-pão, construiu sua biografia artística no Norte do Paraná. O primeiro capítulo, não por acaso, começou na zona rural, numa localidade chamada Água da Jacutinga, município de Londrina.

De Mari começou a tocar em bailes de fazenda aos 14 anos. Integrava a Orquestra do Gervásio, grupo que não deixava o desânimo tomar conta de nenhum casamento, de nenhum batizado, de nenhuma festa junina. Era música boa, garante o sanfoneiro, tão boa que as ''turnês'' alcançaram o perímetro urbano de Londrina. ''Era um molequinho enxerido. Aprendi tudo com o ouvido e nesta época aprendi muita coisa, dominei um repertório muito grande''.

No mundo rural daqueles anos, as transmissões de rádio significavam um entretenimento precioso, o canal que fazia cada criança ou adulto imaginar o universo oculto que a meia-luz de uma lamparina jamais iluminaria. Mas De Mari se sentia forte conduzindo sua sanfona e a distância oceânica foi vencida em pouco tempo. O menino Juliano cresceu, melhorou ainda mais seu desempenho e logo foi visto pela direção artística da Rádio Londrina em uma de suas exibições, já na cidade. Ele tinha apenas 17 anos e nos 10 anos que se seguiram passou a viver o sonho de muita gente que conhecia.

Apreciador da música de raiz, De Mari, salpica a entrevista com números que apresentava na época. A expressão em seu rosto é de puro prazer ao relembrar a orquestra da rádio, seus momentos inesquecíveis, os auditórios lotados aplaudindo estrelas como Ângela Maria, Nelson Gonçalves e Ataufo Alves. Os interlocutores ganham a importância de milhares de aparelhos receptores e da reverência da platéia. ''Nós éramos muito bons. Ensaiávamos uma ou duas músicas e o artista já percebia que não precisa ensaiar o resto''.

Entre tantas estrelas, De Mari escolheu uma para guardar em um lugar especial dentro do coração: Elza Soares. ''Ela era e é uma cantora maravilhosa. Uma artista completa, que impressiona qualquer um, ainda mais um sujeito que havia saído da roça poucos anos antes. Cada música era emoção especial'', recorda.

Depois da apresentação, De Mari conta orgulhoso que foi a orquestra que recebeu muitos elogios da cantora, ainda hoje reverenciada e apontada como um futuro mito da Música Popular Brasileira. ''Ela ficou muito surpresa. Agradeceu a gente e disse que iria falar bem da orquestra para os colegas do Rio. Ela disse que eles viriam tranquilos porque saberiam que em Londrina haviam músicos de primeira qualidade''.

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