Salvos pela má economia
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quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Nelson Bortolin<br>Reportagem Local 
Na contramão dos demais setores econômicos, o agronegócio vive um momento "excepcional" no Brasil. A safra 2015/16, que ainda está sendo plantada, será marcada pela alta rentabilidade devido à escalada do dólar. Mas, o cenário para a 2016/17 é uma incógnita, com riscos a serem monitorados. A análise é do engenheiro agrônomo, doutor em economia aplicada, e professor da Fundação Dom Cabral (FDC), Alexandre Mendonça de Barros, palestrante convidado do 5º EncontrosFolha.
Ele ressalta que a alta da moeda norte-americana possibilitou preços em reais para a soja melhores dos que os do ano passado, apesar da queda da cotação de Chicago. E que os produtores que compraram insumos com dólar na faixa de R$ 3,50 têm boa renda garantida. "Fomos salvo, por incrível que pareça, pela má economia. Mas temos de ficar atentos porque a curva pode se inverter no ano que vem", declara. O risco para a safra seguinte é comprar insumos com dólar alto e vender a produção, meses depois, com o real mais forte.
Em relação aos preços internacionais, o professor vê estabilidade para o bushel da soja entre US$ 8,5 e US$ 9 no ano que vem. O preço do milho, na opinião dele, estará "ligeiramente ascendente". "Não serão preços bons pois teremos grande oferta", afirma.
Outro desafio para a próxima safra, conforme afirma Mendonça de Barros, será o crédito, problema que já teve início neste ano. "Não há dúvida de que o crédito encareceu e que a oferta está mais restrita. Esse é um grande desafio", alerta. Mas, de acordo com ele, a situação no Sul não será tão difícil como a do cerrado. "No Sul, as propriedades são menores e o crédito oficial dá conta de uma boa parte do plantio. Ao mesmo tempo, o pessoal do Paraná, em geral, está muito bem capitalizado, com grãos estocados", minimiza.
Em relação à economia brasileira de forma geral, o professor se mostra bastante preocupado. "O nó em que nós nos metemos vai exigir uma correção fiscal muito forte", salienta. Ele vê uma "ciranda negativa" da qual será difícil sair. "A economia desacelera porque os juros estão altos e a demanda, baixa. A confiança está muito baixa, a arrecadação cai, os governo estaduais, municipais e federal tentam subir imposto, o que é bastante nocivo", enumera.
O aumento da dívida pública e o descuido com o superavit primário são fatores perigosos na opinião dele. "As taxas estão altas. E o governo não arrecada mais do que gasta o suficiente para pagar os juros. Então, a dívida começa a subir. A relação dívida x PIB (Produto Interno Bruto) estava em 59% no ano passado. Hoje as pessoas já projetam essa dívida acima de 65% do PIB", ressalta. Para ele, se o superavit de 2015 vier pequeno como se espera, a dívida passará dos 70%.
Mendonça de Barros não vê sinalização de queda de juros tão cedo. "Como a inflação está muito alta, devendo fechar acima dos 9,5% neste ano, e como já estão projetando inflação acima do teto da meta em 2016, os juros não vão cair tão cedo."
O engenheiro agrônomo ainda ressalta que a política está contaminando a economia e vice-versa. E diz não acreditar que o atual governo irá resgatar credibilidade e liderança suficientes para mudar a situação. Se não houver impeachment da presidente Dilma Rousseff, na opinião do professor, o Brasil "andará de lado" até 2018.
"Não podemos ter a ilusão de que o processo de recuperação será fácil e rápido. Vai ser muito difícil e mais demorado do que as pessoas imaginam", declara. O grande desafio, na opinião dele, é ter um governo que consiga simultaneamente fazer o ajuste fiscal e promover o crescimento. "Não acredito que esse governo consiga reverter o cenário. Na melhor das hipóteses, vai ficar remando parado", afirma.
Além de professor da FDC, onde dá aulas de economia agrícola e de macroeconomia, Mendonça de Barros é membro do Comitê de Assessoria Externa da Embrapa Pecuária Sudeste e do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e sócio-consultor da MB Agro.




