A secretária Marcela (nome fictício), 41 anos, viu a vida se transformar em 1999, quando o marido levou-a pela primeira vez a um bingo. ''Fomos nos divertir. Ele tinha ido umas duas vezes apenas''. A diversão durou menos de uma hora, o suficiente para ganhar mais de R$ 200 e sentir vontade de voltar e ganhar mais. ''Acabei voltando outras vezes e quando perdia, queria recuperar o dinheiro''.
As idas ao bingo se tornaram frequentes, mesmo sem o marido, que jogava apenas socialmente. ''Uma vez perdi todo o dinheiro das minhas férias e precisava recuperá-lo. Acabou se tornando uma loucura. Você não pensa mais na quantia que vai ganhar ou perder. Só quer saber de jogar'', relembra Marcela.
O vício passou a interferir no seu trabalho. ''Saía no horário de almoço para jogar e atrasava para voltar. Voltava duas ou três horas depois. Passei a chegar tarde em casa e comecei a mentir. Para minha família dizia que estava trabalhando em outra sala onde não havia telefone, mas, na verdade, estava jogando. Planejava a mentira antes''.
Na época, Marcela tinha uma filha de apenas três anos, que acabou ficando sob os cuidados da avó. ''Você perde o controle da realidade. Não sentia mais prazer, mas era um momento em que eu ficava sozinha e sem problemas. É uma maneira de fugir dos problemas'', reconhece.
Em 2000, quando a própria empresa descobriu o problema e resolveu encaminhá-la para tratamento, o impulso de jogar ainda falava mais alto. ''Saía do psiquiatra e ia jogar''. Dois anos depois, a empresa deu a última chance para a secretária. Foram 36 dias internadas numa casa de recuperação e a partir daí, Marcela passou a frequentar o grupo Jogadores Anônimos (JA), que também segue os 12 passos dos Alcóolicos Anônimos (AA). ''Só depende de mim. Se quero ter qualidade de vida, ter dignidade e ser feliz, preciso parar de jogar. São quase quatro anos sem jogo na minha vida'', conta. (M.O)

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