Sacrifício para estudar
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
Marcos Martins<br>Equipe da Folha 
Em 2001, quando o professor Valcir Edemar Steinhaus estava de mudança para a Comunidade Castelhanos, na zona rural de São José dos Pinhais, não imaginava a realidade que iria encontrar. O desafio era assumir a direção da Escola Municipal Rural São Francisco, que fica a 80 km de Curitiba. Entre todas as dificuldades encontradas, a que mais preocupou foi a situação dos alunos de
1ª a 4ª séries do Ensino Fundamental, que não contavam com transporte escolar e caminhavam até duas horas a pé para poderem estudar. Foi preciso muito esforço e dedicação para resolver a situação, porque se você não luta para suprir as necessidades deles, a desmotivação é inevitável, analisa o professor. A solução só veio ano passado depois que o drama das crianças foi mostrado em um filme (veja texto nesta página).
Camila Tais Schmitt, 10 anos, viveu o drama. Andava quase duas horas para chegar na escola. Os atrasos eram inevitáveis. Era muito ruim, tinha que ficar copiando a matéria que já tinha sido dada, perdia a explicação.
Às vezes eu desanimava, pensava em desistir,
mas minha mãe não
deixava, conta.
As onças que povoam minisséries amazônicas da televisão não estão na mata que envolve a colônia, mas nem assim deixaram de habitar o imaginário da pequena Carla Ferreira Costa, 10 anos, que temia encontrar alguma pela frente. Já lagartos, tatus, cães e até cobras, ela encontrou aos montes. Teve uma com um sininho, que veio pro lado da gente. Dava muito medo, relembra. Carla estudava à tarde. Saía de casa às 11 da manhã e andava duas horas a pé até chegar a escola. Na volta, os pais precisavam encontrá-la no caminho, já que até chegar em casa estava escuro e o local não conta com iluminação.
Quando chovia, o rio ficava cheio e não dava para atravessar a ponte. O jeito era ficar em casa. Eu ficava triste, mas não dava para ir, conta. Se a chuva ocorria na hora de voltar, era preciso dormir na casa de algum colega, já que a enxurrada impedia a subida do morro.
Outro drama era o cansaço. Devido ao longo percurso feito a pé, em meio às pedras da serra, as pernas doiam e Carla acabava faltando no dia seguinte. Por causa das faltas eu perdi a primeira série, recorda a garota, tentando disfarçar a emoção que quase enche os olhos dela de lágrimas. De volta aos estudos, o sonho agora é ser professora. Gosto de ensinar, de ajudar. Tenho vontade, planeja a agora sorridente garota.
Joanes Hugo Barth, 10 anos, passou mais de um mês indo para escola a pé, caminhando pelas subidas do morro. Era preciso driblar o cansaço e os cães que apareciam pelo trajeto. Dava vontade correr, mas tinha que passar sem medo, para ele não perceber, explica. O momento mais complicado era o de atravessar uma pequena ponte, cercada de arame, sobre um rio que corta a colônia. As tábuas estão velhas e ficam lisas quando chove. Para chegar até o outro lado, só com muita coragem. Um garoto caiu de cima dela uma vez. Fiquei com medo de passar, mas não tem outro jeito. Eu já prendi o pé e minha mãe já escorregou, conta.
Personagem dos momentos difíceis passados pelos filhos, Janete Barth, mãe de Joanes, não esquece o que passou. Um dia fui buscar minha filha e a encontrei no caminho, chorando, porque já estava escuro, recorda. Na memória está também o dia de uma grande tempestade. Era bastante vento, o mato balançava, a chuva estava muito forte e não tinha nenhum lugar para se proteger. Parecia filme de terror, define. Mesmo assim, Janete enfrentou todas as dificuldades, na busca de um futuro melhor para os filhos. A gente não tem estudo e sofre muito, sabe o que é viver assim. Então é preciso encarar tudo isso, lutar, mesmo sendo difícil. A vontade é ver todos formados, mas não temos condições financeiras. Minha filha queria fazer Farmácia, só que assim não tem jeito, lamenta a mãe, que sonha com uma bolsa de estudos para a filha mais velha. Quem sabe eu ainda realizo, planeja, emocionada.
Filme ajudou a resolver o problema
O filme Caminho da Escola Paraná, da diretora Heloísa Passos, foi determinante para garantir transporte escolar para as crianças da Colônia Castelhanos. Produzido entre 2003 e 2006, o roteiro foi elaborado em conjunto com a educadora Emília Hardy. Segundo a diretora, a idéia principal do filme foi traçar um paralelo entre o esforço físico e a expectativa de vida. Queríamos encontrar o sonho dessas crianças. Como não iríamos filmar várias delas, escolhemos quatro e tivemos como proposta acompanhar a vida e o cotidiano das famílias. Em São José dos Pinhais, elas demoram de duas a três horas para ir e voltar, comenta Heloisa.
Para ela, o filme deve chamar a atenção de professores e coordenadores envolvidos com a educação infantil. A esperança dessas crianças é muito apaixonante. Elas são aplicadas, não faltam aulas e fazem o esforço de ir caminhando, pois acreditam que a escola pode transformar suas vidas. Retratamos um universo de uma pequena parcela, mas são mais de 14 milhões de crianças que vivem essa realidade em todo o país, afirma.
Quando os responsáveis pela secretaria municipal de Educação conheceram os detalhes do drama passado pelas crianças narrados no filme, passaram a disponibilizar o transporte escolar. Alguns achavam que era inviável, mas acabaram se sensibilizando e organizando uma solução, conta o professor Valcir Steinhaus. Hoje, na Colônia Castelhanos, uma van transporta os alunos de 1ªa 4ªséries e um ônibus leva os outros, de 5ªa 8ªséries, até a Escola Eunice Borges, que fica em Contenda.
Segundo dados de 2006, fornecidos pela Secretaria Estadual de Educação, 34.523 alunos utilizavam o serviço de transporte escolar na Região Metropolitana de Curitiba número que, segundo a assessoria de imprensa da secretaria, deve ter pouca alteração para 2007. A cidade com maior número de alunos que dependem do transporte é Campo Largo, com 4.736, seguida de São José dos Pinhais (3.441), Colombo (2.460) e Mandirituba (1.874). (M.M.)


