Em 2001, quando o professor Valcir Edemar Steinhaus estava de mudança para a Comunidade Castelhanos, na zona rural de São José dos Pinhais, não imaginava a realidade que iria encontrar. O desafio era assumir a direção da Escola Municipal Rural São Francisco, que fica a 80 km de Curitiba. Entre todas as dificuldades encontradas, a que mais preocupou foi a situação dos alunos de
1ª a 4ª séries do Ensino Fundamental, que não contavam com transporte escolar e caminhavam até duas horas a pé para poderem estudar. ‘‘Foi preciso muito esforço e dedicação para resolver a situação, porque se você não luta para suprir as necessidades deles, a desmotivação é inevitável’’, analisa o professor. A solução só veio ano passado depois que o drama das crianças foi mostrado em um filme (veja texto nesta página).
  Camila Tais Schmitt, 10 anos, viveu o drama. Andava quase duas horas para chegar na escola. Os atrasos eram inevitáveis. ‘‘Era muito ruim, tinha que ficar copiando a matéria que já tinha sido dada, perdia a explicação.
Às vezes eu desanimava, pensava em desistir,
mas minha mãe não
deixava’’, conta.
  As onças que povoam minisséries amazônicas da televisão não estão na mata que envolve a colônia, mas nem assim deixaram de habitar o imaginário da pequena Carla Ferreira Costa, 10 anos, que temia encontrar alguma pela frente. Já lagartos, tatus, cães e até cobras, ela encontrou aos montes. ‘‘Teve uma com um sininho, que veio pro lado da gente. Dava muito medo’’, relembra. Carla estudava à tarde. Saía de casa às 11 da manhã e andava duas horas a pé até chegar a escola. Na volta, os pais precisavam encontrá-la no caminho, já que até chegar em casa estava escuro e o local não conta com iluminação.
  Quando chovia, o rio ficava cheio e não dava para atravessar a ponte. O jeito era ficar em casa. ‘‘Eu ficava triste, mas não dava para ir’’, conta. Se a chuva ocorria na hora de voltar, era preciso dormir na casa de algum colega, já que a enxurrada impedia a subida do morro.
  Outro drama era o cansaço. Devido ao longo percurso feito a pé, em meio às pedras da serra, as pernas doiam e Carla acabava faltando no dia seguinte. ‘‘Por causa das faltas eu perdi a primeira série’’, recorda a garota, tentando disfarçar a emoção que quase enche os olhos dela de lágrimas. De volta aos estudos, o sonho agora é ser professora. ‘‘Gosto de ensinar, de ajudar. Tenho vontade’’, planeja a agora sorridente garota.
  Joanes Hugo Barth, 10 anos, passou mais de um mês indo para escola a pé, caminhando pelas subidas do morro. Era preciso driblar o cansaço e os cães que apareciam pelo trajeto. ‘‘Dava vontade correr, mas tinha que passar sem medo, para ele não perceber’’, explica. O momento mais complicado era o de atravessar uma pequena ponte, cercada de arame, sobre um rio que corta a colônia. As tábuas estão velhas e ficam lisas quando chove. Para chegar até o outro lado, só com muita coragem. ‘‘Um garoto caiu de cima dela uma vez. Fiquei com medo de passar, mas não tem outro jeito. Eu já prendi o pé e minha mãe já escorregou’’, conta.
  Personagem dos momentos difíceis passados pelos filhos, Janete Barth, mãe de Joanes, não esquece o que passou. ‘‘Um dia fui buscar minha filha e a encontrei no caminho, chorando, porque já estava escuro’’, recorda. Na memória está também o dia de uma grande tempestade. ‘‘Era bastante vento, o mato balançava, a chuva estava muito forte e não tinha nenhum lugar para se proteger. Parecia filme de terror’’, define. Mesmo assim, Janete enfrentou todas as dificuldades, na busca de um futuro melhor para os filhos. ‘‘A gente não tem estudo e sofre muito, sabe o que é viver assim. Então é preciso encarar tudo isso, lutar, mesmo sendo difícil. A vontade é ver todos formados, mas não temos condições financeiras. Minha filha queria fazer Farmácia, só que assim não tem jeito’’, lamenta a mãe, que sonha com uma bolsa de estudos para a filha mais velha. ‘‘Quem sabe eu ainda realizo’’, planeja, emocionada.


Filme ajudou a resolver o problema

  O filme ‘‘Caminho da Escola Paranᒒ, da diretora Heloísa Passos, foi determinante para garantir transporte escolar para as crianças da Colônia Castelhanos. Produzido entre 2003 e 2006, o roteiro foi elaborado em conjunto com a educadora Emília Hardy. Segundo a diretora, a idéia principal do filme foi traçar um paralelo entre o esforço físico e a expectativa de vida. ‘‘Queríamos encontrar o sonho dessas crianças. Como não iríamos filmar várias delas, escolhemos quatro e tivemos como proposta acompanhar a vida e o cotidiano das famílias. Em São José dos Pinhais, elas demoram de duas a três horas para ir e voltar’’, comenta Heloisa.
  Para ela, o filme deve chamar a atenção de professores e coordenadores envolvidos com a educação infantil. ‘‘A esperança dessas crianças é muito apaixonante. Elas são aplicadas, não faltam aulas e fazem o esforço de ir caminhando, pois acreditam que a escola pode transformar suas vidas. Retratamos um universo de uma pequena parcela, mas são mais de 14 milhões de crianças que vivem essa realidade em todo o país’’, afirma.
  Quando os responsáveis pela secretaria municipal de Educação conheceram os detalhes do drama passado pelas crianças narrados no filme, passaram a disponibilizar o transporte escolar. ‘‘Alguns achavam que era inviável, mas acabaram se sensibilizando e organizando uma solução’’, conta o professor Valcir Steinhaus. Hoje, na Colônia Castelhanos, uma van transporta os alunos de 1ªa 4ªséries e um ônibus leva os outros, de 5ªa 8ªséries, até a Escola Eunice Borges, que fica em Contenda.
  Segundo dados de 2006, fornecidos pela Secretaria Estadual de Educação, 34.523 alunos utilizavam o serviço de transporte escolar na Região Metropolitana de Curitiba – número que, segundo a assessoria de imprensa da secretaria, deve ter pouca alteração para 2007. A cidade com maior número de alunos que dependem do transporte é Campo Largo, com 4.736, seguida de São José dos Pinhais (3.441), Colombo (2.460) e Mandirituba (1.874). (M.M.)

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