Até a Páscoa, na casa da bancária aposentada Margarida Wessling, 56 anos, não se come carne. A abstinência durante a Quaresma é seguida por toda a família. Ao invés da dispendiosa carne e pratos incrementados, o almoço é servido com mais simplicidade e acompanhado de peixe, atum e sardinha. "Peixe só se for baratinho, porque costuma ser até mais caro do que a carne no mercado. Bacalhau, nem pensar. Para nós é uma tradição abster-se da carne, se a gente não cumprir dá um peso na consciência, um arrependimento. Com a economia, compramos alimentos e doamos para a igreja", disse Margarida.
Na sala, decorada com um quadro da Santa Ceia, um crucifixo e imagens religiosas, Margarida, os filhos e o marido, Levi, 55 anos, se reúnem para a refeição. "Somos casados há 32 anos, e nunca deixamos de cumprir a Quaresma. Eu e o meu marido aprendemos esse princípio com nossas famílias. Também vamos mais a igreja, fazemos as novenas, às quartas-feiras, e participamos da procissão da Via Sacra, às sextas-feiras. Reviver a história de Jesus, que venceu o pecado com a Ressureição, é a motivação para celebrar a Páscoa. Se não for assim, a Páscoa não tem sentido", opinou.
"Eu ainda deixo de tomar refrigerante, que gosto muito, e meu filho não come doces. É bom fazer um sacrifício desses na Quaresma", completou Margarida, que foi professora de Catequese por 20 anos. A vizinha dela, a dona de casa Deusa Maria Rosa, 53 anos, só não come carne na Quarta-feira de Cinzas e na Semana Santa. "Acaba que o peixe é mais caro do que a carne, então perdeu um pouco o próposito dessa abstinência. Procuro fazer refeições mais modestas, comer menos e doar alimentos para os necessitados. Quaresma é um período de preparação para a Ressureição de Cristo, são 40 dias de oração, jejum e caridade", resumiu ela.
Mesmo cuidando do netinho Joaquim, de um ano e meio, Deusa costuma aumentar as orações no período quaresmal. "Precisa ser espontâneo, querer conversar mais com Deus. Aproveito para rezar mais o terço, porque sou um pouco preguiçosa para isso", confessou. O católico "de berço" Rafael Busato, 25 anos, também busca mais intimidade com Deus. "Na Quaresma quero aprofundar minha vida espiritual, jejuando, ajudando os pobres. A Igreja pede que a gente reflita, faça sacrifícios e promova a Campanha da Fraternidade", informou o agente da pastoral, se referindo ao tema "A paz é fruto da justiça".
"Eu sou fã de carne, mas faço abstinência todas as sextas-feiras da Quaresma. No ano passado, deixei de comer feijão, que adoro. Foi uma vivência interessante, pude imaginar como é a rotina de quem não tem nem arroz e feijão para comer", contou. "Jejuar não é uma tortura. É buscar a transformação e se colocar no lugar das pessoas desprovidas, aprender com isso. Em termos práticos, para ajudar o próximo, nos colocamos no lugar dele", acredita Rafael Busato.

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