Saboroso, pinhão é aproveitado em pratos diversos
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sábado, 25 de junho de 2005
Andréa Bordinhão<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Ele pode servir como ingrediente para as mais variadas receitas, porém sua versão mais conhecida é cozido. Corre sério risco de extinção. Apesar de ser muito conhecido no Paraná, ainda não existem pesquisas concluídas sobre seu melhor aproveitamento na culinária ou medicina. É um alimento milenar. Não é difícil de advinhar que produto tem todas estas características, certo?
É o pinhão. Afinal, nesta época do ano qualquer feira, quitanda, supermercado oferece o produto em grande quantidade e a um preço acessível. Porém, somente agora esta semente típica do Paraná está começando a ser valorizada pela culinária e pelos estudiosos. E é bom eles se apressarem. A produção paranaense comercializada é pequena e os chineses já estão de olho.
''O Ministério do Turismo me pediu para levar dois pratos típicos que representam o Paraná para a feira de Turismo que ocorreu recentemente em São Paulo. Tive dificuldades porque, além do barreado, ficava complicado levar para uma feira o porco no rolete ou carneiro no buraco. Daí pensei em um receita com pinhão. Inventei o nhoque de pinhão. Acabou dando certo'', contou o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Paraná (Abrasel-PR), Bruno Draghi. E a idéia de misturar a culinária italiana com a semente típica do Paraná parece que deu certo.
Um nhoquete de pinhão (uma espécie de nhoque de pinhão), invenção também de um paranaense, o chef de cousine do Centro Europeu Sandro Duarte, rendeu ao Estado o prêmio Sabor Brasil, promovido pela 21 Feira Internacional de Produtos e Serviços para Alimentação (Fispal), a maior de gênero do País. O prato campeão foi um barreado feito com nhoquete de pinhão, banana cozida no vapor de cachaça e laranjinha kinkan. ''Desenvolvemos o prato para o concurso. O nhoquete é servido em prato separado, ao lado do barreado. E só combina porque é de pinhão'', explica Duarte. Segundo ele o pinhão substitui a batata na receita de nhoque.
E não é só no nhoque. Quem quiser aproveitar a iguaria paranaense em outros pratos já tem disponível algumas receitas. Quando se fala de receitas com pinhão, a primeira que vem à cabeça é a sopa. Porém, já estão começando a surgir outras, como suflê, com carne, em doces como bombocado, bolo e pudim. Isto é, ainda tem espaço para cozinheiros criativos. ''Na hora de criar a receita com o pinhão levei em consideração que ele é impermeável, não absorve tempero, e não tem um sabor muito forte. Por isso pensei em moê-lo'', explicou Daghi.
''No final do ano passado comecei a estudar a composição química do pinhão. A intenção era descobrir outras propriedades da semente e saber se é possível tirar algum proveito da casca, como algum tipo de farinha. Mas a pesquisa parou por falta de dinheiro'', contou a professora do curso de Nutrição da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Elenice Murate. Entre os elementos que compõe o pinhão, a maior quantidade é de carboidratos (cerca de 50% da semente). É possível encontrar ainda minerais, proteína, lipídio (gordura) e fibras. Cada 100 gramas cozidas têm cerca de 300 calorias. E, além de o pinhão ter sabor suave, Elenice dá mais uma dica para os cozinheiros: o pinhão tende a absorver outros sabores quando misturado.
Ainda existe fartura de pinhão para vender, porém a araucária está em extinção. A produção de pinhão do Paraná, na safra 2002/2003, última registrada pelo Departamento de Economia Rural (Deral), órgão vinculado à Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, foi de 2,2 mil toneladas. É pequena se comparada com os demais produtos agrícolas do Estado.
A técnica em produtos do Deral, Neusa Gomes de Almeida, conta que já recebeu representantes da China e de Taiwan interessados em importar toneladas de pinhão do Paraná. O negócio não foi concretizado porque, é claro, o Paraná não tem produção para isso. ''Eles queriam muitas toneladas e durante todo o ano'', afirmou. E a consciência dos orientais que não se deve desperdiçar nada parece bem maior do que a dos brasileiros. Neusa conta que primeiro eles estranharam o fato de se tirar a casca do pinhão para comê-lo e depois quiseram beber a água em que a semente foi cozida.


