‘‘Fazer a defesa dos direitos humanos equivale a dizer que eles não estão sendo respeitados.’’ A afirmação é do sociólogo chileno Marcos Roitman. Ele fez a palestra ‘‘Direitos Humanos, Democracia e Globalização’’ na segunda-feira, em Londrina. Também esteve em debates com as comunidades de Ponta Grossa, Curitiba, Cascavel e Foz do Iguaçu.
Roitman rejeita conceitos simplistas de globalização. Para ele, o problema é culpar a globalização por quase tudo que ocorre, como se faz com o fenômeno meteorológico El Ni¤o ou se fazia com a teoria da dependência, formulada por outro sociólogo, Fernando Henrique Cardoso. ‘‘Na década de 70, se o Santos ganhasse do Palmeiras, se o sujeito tinha um problema afetivo, se caía o preço da banana, tudo era culpa da dependência. Quando se perguntava o que era a dependência, muitos não sabiam como defini-la. Da mesma forma, temos hoje a globalização.’’
A propósito, Roitman diz que globalização se refere principalmente à comunicação mundial. Ele comenta:
- A globalização ‘coloniza o tempo’. Por exemplo: na noite passada eu assisti ao vivo aos bombardeios da Iugoslávia e a um jogo de futebol do meu time na Espanha, o Real Madrid. Há dez anos, isso não aconteceria. Globalização é o que o pensador Marshall McLuhan chamava de ‘aldeia global’. Mas uma coisa é estar informado, outra é estar formado. Há um grande controle da informação que unifica tudo aquilo que se informa.
Para explicar outros fenômenos políticos e econômicos mundiais, Roitman utiliza conceitos diferentes: imperialismo, nova ordem internacional, divisão internacional do trabalho, capital transnacional. ‘‘A globalização não é um Deus todo-poderoso e onipresente’’, diz.
Roitman defende uma amplo ‘‘projeto democrático’’ baseado em compromissos éticos e em princípios de justiça social. Para ele, sistemas eleitorais são necessários, mas não suficientes para definir um sistema democrático. ‘‘A democracia é uma forma de vida, não apenas uma forma de governo’’, diz o sociólogo. Ele sustenta que os atuais modelos eleitorais, em todo o planeta, não realizam plenamente a democracia.
‘‘Não se pode falar em governo democrático quando o Estado é autoritário. Do mesmo modo, não se pode falar em liberdade de expressão quando há 50% de analfabetos num determinado país’’, afirma. Na opinião do chileno, as ditaduras sobrevivem no mundo sob diversas formas. ‘‘Não se trata apenas de um problema da América Latina, mas de um problema do mundo. Ou alguém acredita que exista menos corrupção na Itália ou na Espanha, por exemplo?’’
Roitman tem uma visão bastante negativa do sistema imposto pela nova ordem mundial:
- Estamos condenados a viver num mundo esquizofrênico. O valor fundamental desse sistema é o dinheiro e tudo que ele fortalece: egoísmo, individualismo, corrupção. Essa ordem social da ganância impede valores éticos.
A mudança, para o sociólogo, começa pelo indivíduo. ‘‘Cada um deve começar, no seu dia-a-dia, a desenvolver uma visão de mundo em que se reconheça o outro. É preciso, sempre, agir por compromisso ético e não por interesse particular’’, diz Marcos Roitman. Transformar o mundo globalizado, portanto, seria uma tarefa realizada primeiramente a partir da consciência de cada um.
Analisando a política internacional da atualidade, Marcos Roitman critica a Guerra da Iugoslávia. Ele lembra que todas as guerras violam os direitos humanos e têm como objetivo consolidar uma nova ordem. A razão do atual conflito - analisa Roitman - seria garantir a consolidação mundial do poderio norte-americano. ‘‘A Segunda Guerra Mundial gerou a ONU. Agora, os Estados Unidos e os aliados atacam um país sem consultar o Conselho de Segurança da ONU. Esta não tem mais razão de ser’’, avalia Roitman. Ele sentencia:
- Desde a queda do Muro de Berlim, os EUA invadiram o Panamá, o Haiti, o Iraque. Agora, bombardeiam a Iugoslávia. A Terceira Guerra Mundial já começou.

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