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Londrina

Rodadas de Conteúdo 5m de leitura Atualizado em 18/10/2021, 08:03

Após freio da pandemia, tecnologia e professor serão os motores para recompor prejuízos

Fechamento e reabertura de escolas provocam debate no setor e podem fomentar cultura inovadora nos sistemas públicos e privados

PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de outubro de 2021

Lucas Catanho e Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA
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O artigo 206 da Constituição é muito claro: a garantia de padrão de qualidade é um dos princípios do ensino no País.  

Imagem ilustrativa da imagem Após freio da pandemia, tecnologia e professor serão os motores para recompor prejuízos
|  Foto: Roberto Custódio
 

Nos últimos 33 anos - e também nos outros 166 anos anteriores de plena soberania, a construção de um sistema educacional que cumpra este requisito nunca deixou a condição de obra inacabada, com curtos períodos de aceleração e longos períodos de lentidão. Com a pandemia, a rigor, o canteiro parou e as letras no papel da Carta Magna se descolaram de vez da realidade. A educação remota esbarrou em limitações de infraestrutura tecnológica das escolas e das famílias.  

E a preocupação com o futuro de crianças e jovens, enfim, virou tema nacional. A sensação que dominou os setores mais politizados da sociedade é que nunca foi tão importante debater como tornar esta garantia constitucional - a educação de qualidade para todas e todos - em fato concreto. 

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|  Foto: Roberto Custódio
 

A quinta e penúltima edição do ano das Rodadas de Conteúdo Folha, realizada na quarta-feira (13), contribuiu para este esforço. “As inovações e relações na Educação no cenário pós-pandemia” foi o mote do encontro, aberto pelo superintendente do Grupo Folha, José Nicolás Mejía. “Sem dúvida nenhuma, a educação foi um dos setores mais afetados pela crise sanitária. As mudanças impostas por este acontecimento precisam ser tratadas com especial atenção para que o País e a região sigam seu caminho rumo ao desenvolvimento”, afirmou. 

O mediador Lucas Vieira de Araujo, professor do Departamento de Comunicação da UEL (Universidade Estadual de Londrina), pós-doutorando da USP (Universidade de São Paulo) e colunista de inovação e empreendedorismo da FOLHA, entende que a principal contribuição do evento para as inovações no campo da Educação foram os debates sobre dois aspectos.  

“Primeiro, as ferramentas que podem ser usadas em sala de aula e fora dela como instrumento didático-pedagógico. O segundo aspecto diz respeito à inovação fazer parte do processo de ensino-aprendizagem”, pontuou. 

Maria Fernanda Suss, gerente-geral do Centro de Inovação Pedagógica, Pesquisa e Desenvolvimento dos colégios do Grupo Positivo, considera que a descoberta maior durante a pandemia foi que a tecnologia é um benefício que ajuda muito na aprendizagem, especialmente para individualizar o processo. 

“Mas também deixa claro o quanto o papel do professor, mediador de toda essa aprendizagem, é imprescindível. É ele quem traz o afeto, a humanidade ao processo. Nosso foco é nas relações humanas, usando a tecnologia de forma assertiva, mas sempre com o olhar do professor conduzindo todo esse processo”, destacou.  

O secretário de Educação do Estado de São Paulo, Rossieli Soares da Silva, reforçou esta ideia. “Uma coisa não substitui a outra, a pandemia nos ensinou isso. A tecnologia não pode ser pensada na educação básica para substituir a presencialidade. Por outro lado, não é mais possível imaginar uma aula sem o uso das tecnologias disponíveis”, explicou. 

A deputada federal Luísa Canziani ponderou que o desenvolvimento da aprendizagem em sala de aula e o combate à desigualdade no ambiente escolar já eram desafios enormes antes da pandemia e que agora se tornaram “escancarados”.  

A parlamentar destacou também que as discussões sobre o sistema educacional a médio e longo prazo devem obrigatoriamente levar em consideração dois dados: 85% das profissões em 2030 ainda não foram criadas e um terço dos jovens brasileiros que estão fora da escola não trabalham.  “Por isso precisamos falar do ensino profissional e tecnológico. Precisamos oferecer formação rápida para a juventude e inseri-la no mercado de trabalho e no empreendedorismo”, afirmou. 

Tecnologia foi ‘descoberta’ para facilitar ‘olhar individualizado’ 

Maria Fernanda Suss, coordenadora de inovação pedagógica do Grupo Positivo, destaca que a tecnologia foi fundamental para levar a escola para dentro da casa dos alunos. “Mas ao mesmo tempo a equipe estar apoiando emocionalmente e mantendo as relações com os nossos estudantes.” 

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|  Foto: Roberto Custódio
 

Equipe pedagógica e professores se uniram em um esforço para que, em duas semanas, o ensino remoto pudesse ser implantado. 

“Aulas foram preparadas, gravadas, processos avaliativos estabelecidos dentro da plataforma educacional. Para nós ficou muito evidente que o papel do professor é fundamental, insubstituível. A tecnologia vem compor o cenário educacional, facilitar o processo, nos ajudar num cenário mais criativo, mais empreendedor. Mas ter o professor como fomentador e mediador desse processo é o que faz a diferença na aprendizagem.” 

Ao atender um cenário muito diverso, crianças de 2 anos a adolescentes de 17 anos, a escola buscou que cada um tivesse um olhar individualizado. “E fazer isso por meio da tecnologia foi uma grande descoberta.”  

Processos avaliativos com acompanhamento em tempo real do desempenho individual, trabalhos em equipe feitos remotamente, utilização de podcasts, vídeos de apoio às famílias. Esses foram alguns dos exemplos de ferramentas utilizadas. 

“Hoje temos um perfil no Instagram com quase 1 mil professores (papo_de_jaleco). Eles trocam constantemente experiências de sala de aula pela rede social. São oportunidades de desenvolvimento para todos os personagens da escola”, pontuou.  

A prática da formação docente remota, que já havia sido idealizada anteriormente pela escola, se concretizou na pandemia. “Já tínhamos dado o nosso primeiro passo, era nossa proposta para 2020. Temos professores da instituição que são mediadores dos seus colegas, uma grande rede de aprendizagem possibilitada pelas ferramentas tecnológicas. São várias possibilidades que, somadas, vêm transformar o ambiente escolar depois dessa vivência quase que estratosférica da pandemia.”  

Por fim, Maria Fernanda destaca que a pandemia veio mostrar o quanto a tecnologia realmente soma com a educação, que sempre caminhou a passos muitos lentos em relação ao desenvolvimento tecnológico. “A tecnologia atrelada a um bom planejamento é realmente um diferencial no processo de ensino-aprendizagem”, conclui.

Deputada defende PEC que abre caminho para federais ter fundos próprios de manutenção

O crônico problema de caixa das universidades federais sempre foi um dos debates mais acalorados da educação brasileira. Na Rodada de Conteúdo, a deputada Luísa Canziani propôs um tipo de inovação que está fora da esfera tecnológica e aborda a cultura de financiamento das instituições públicas de ensino superior. 

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|  Foto: Roberto Custódio
 

Inspirada no modelo das endowments - os fundos patrimoniais formados principalmente pela doação de ex-alunos e que dão autonomia e sustentabilidade financeira à instituições icônicas dos Estados Unidos como Harvard, Yale, Princeton e Stanford (todas colecionadoras de prêmios Nobel), a ideia base contida no Projeto de Emenda Constitucional 32, de autoria da parlamentar londrinense e que ainda tramita na Câmara, é permitir que as receitas de convênios e doações sejam usados diretamente pelas universidades. Hoje este tipo de ativo é revertido para o Tesouro Nacional, o que, na prática, é usado para abater a dívida pública. 

Enquanto isso, nos Estados Unidos, o Centro Nacional de Estatística para a Educação dos Estados Unidos (NCES) estimou em 2017 que estes ativos alcançavam US$ 600 bilhões (ou R$ 3 trilhões). “Hoje não há clareza e convicção de que estes recursos doados chegarão realmente à universidade, o que desestimula eventuais interessados”.

Outro tema de engajamento da deputada é o impacto da tecnologia 5G no sistema educacional. A deputada faz parte do Grupo de Trabalho que acompanha o edital de licitação. O leilão está marcado para o dia 4 de novembro. Ela está otimista com as novas possibilidades que o aperfeiçoamento do sinal deve trazer para as unidades escolares, o que pode permitir uma intensificação da adoção das TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) tanto para os estudantes quanto para a formação de professores em lugares mais remotos.

Todas as tecnologias são potenciais instrumentos pedagógicos, afirma gestor

Como avaliar o nível de leitura de uma criança de 7 anos? Antes do colapso escolar da pandemia, pouca gente poderia imaginar a existência de um aplicativo capaz de simplificar um teste tão importante. Mas em dois anos, tudo mudou. Já neste ano, milhares de pequenos paulistas vão usar a ferramenta em todo o estado. “Este novo formato foi importante, inclusive, porque o alcance dos testes ganhou amplitude e vai alcançar todas as unidades”, afirmou o titular da secretaria, o ex-ministro Rossieli Soares da Silva.

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|  Foto: Roberto Custódio
 

A avaliação é voltada aos estudantes do 2º ano do ensino fundamental e começa na próxima semana. De acordo com o descritivo no site da secretaria, o objetivo é analisar o desempenho individual na leitura e compreensão de textos escritos para diagnosticar eventuais lacunas no processo de alfabetização durante o período de pandemia. Na prática, o exercício proposto poderá verificar a capacidade, fluidez e ritmo do estudante de ler palavras, pseudopalavras e textos voltados à etapa escolar.

O gestor lembrou que a tecnologia no ensino tem várias frentes e todas elas vão avançar mais aceleradamente após a normalização sanitária. “Além das ferramentas de avaliação, é preciso que a tecnologia ajude num grande desafio, que é tornar a aula mais atrativa para crianças e jovens que estão super conectados. A inovação dentro deste contexto, faz a aprendizagem fazer mais sentido para eles”, lembrou.

O uso de tecnologia também pode melhorar as ferramentas administrativas, a aplicação de carga extra de conteúdo e, principalmente, a formação dos professores, que poderão ter atividades semanais de qualificação simultaneamente em cada uma das escolas.

“Porém, há de se ter cuidado. O uso exagerado e incorreto da tecnologia pode ter o efeito inverso, e fazer o desempenho piorar, como aconteceu, por exemplo, em Portugal. A modernização da escola deve ser direcionada para o que é realmente importante”, argumentou Rossieli.

Para reduzir este risco, o governo de São Paulo já tem uma receita: um processo contínuo de formação em tecnologia, o entendimento em quais áreas as ferramentas devem ser aplicadas, a oferta de excelente nível de conectividade nas unidades escolares e aplicativos acessíveis aos dispositivos móveis mais simples.

Para mediador, abordagem sobre aspectos da humanização no uso das tecnologias escolares foi destaque do evento 

O mediador Lucas Vieira de Araujo ressalta que o debate em torno da humanização no uso das tecnologias escolares e as formas de incentivar professores, alunos e pais de alunos a aderirem às novas ferramentas educacionais sem perder o foco na aprendizagem foi muito interessante.  

“Os exemplos trazidos pelo secretário Rossieli [Soares da Silva] foram muito relevantes sobre envolver crianças desde a mais tenra idade em processos inovativos. Esse tema, inclusive, faz parte das minhas pesquisas sobre os ecossistemas de inovação, notadamente em universidades e centros de pesquisa.” 

Araujo acrescenta que a inovação pode ser feita com máquinas, mas sempre parte do ser humano. “É o ser humano que vai desenvolver a inovação, que vai utilizá-la, saber a maneira adequada de aplicar determinada ferramenta tecnológica no dia a dia para que nós tenhamos de fato um ensino eficaz e inovador.”  

Ele destaca a importância de as pessoas terem acesso à tecnologia e condições de utilizá-la adequadamente, de modo que as ferramentas sejam bem empregadas. “No universo da educação isso é ainda mais relevante. Quando a pessoa utiliza certa tecnologia, precisa saber lidar com ela, utilizar as funcionalidades da melhor maneira possível. O letramento digital precisa preparar as pessoas para um mundo muito competitivo que vai exigir uma gama de conhecimentos que, muitas vezes, extrapolam o que está no currículo escolar.”  

O mediador acrescenta que hoje fala-se muito em softwares que permitem a comunicação a distância. Mas a educação é muito mais do que uma comunicação oral, envolve uma série de fatores. 

“Desde questões avaliativas (provas, trabalhos), como também refere-se a mecanismos pelos quais você pode fazer uma determinada tarefa para uma certa disciplina que exija um conhecimento mais prático do dia a dia”, destacou.

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