A Próxima Aventura
Um dia a gente vai acordar com saúde e ânimo de criancinha esperta, olhar em volta e ver que tudo vai dar certo. No fundo a gente sempre foi assim, disposto a embarcar em grandes aventuras. E é por isso que tudo vai dar certo. Parece loucura? Então venha comigo. Pense nos navegantes antigos, por exemplo. Um bando de europeus que despejavam o urinol pela janela, com a mentalidade medieval ainda mal digerida na cabeça, com sua terra quadrada e seus mares cheios de monstros, foram capazes de largar tudo e enfrentar oceanos em barcos que mais pareciam cascas de nozes com fraldas esticadas. Quem acreditaria? E se alguém predissesse que, entre esses europeus, justamente os portugueses se destacariam, em técnica e arrojo, seria internado em inglês, preso em holandês, desprezado em francês e assado em espanhol. Ninguém acreditaria e, no entanto, nós estamos aqui, provando que o impossível está aí para acontecer. É que as coisas improváveis existem justamente para nos dar água na boca, coceira nos miolos e aquela sensação infantil de que você é um herói e tudo um belo dia vai dar certo.
Não, não pense em ir para Marte. Lá é mais frio que Curitiba. A melhor parte da aventura é o fato dela ser uma viagem que começa sem ser preciso sair nem do lugar. Lembre-se do Zen: você já passou milhares de vezes por um lugar e, de repente, sem que nada tenha mudado, fica surpreso com um detalhe inesperado que, na verdade, sempre esteve presente naquela paisagem. É essa a iluminação, a sua iluminação pessoal e instransferível, que liberta das trevas as maravilhas que você já tem. E ainda não sabe se maravilhar.
Mas quando a gente acordar da aventura, é claro que não vai querer estar sozinho. E é aí que está o desafio, o ‘‘impossível’’, o ‘‘improvável’’, o nosso oceano desconhecido: não queremos partir deixando nossos amigos pra trás e, portanto, tudo tem que dar certo pra eles também, para que não seja apenas mais uma aventura solitária. Sozinho não tem graça, fica parecendo o que aconteceu daquela outra vez, no tempo em que a gente achava que tinha que ir pra longe e não sabia que o novo mundo está aqui e a gente não sabe. Eu, por exemplo, vou levar todos os amigos, todos os amores (ou ser levados por eles, tanto faz). E, é claro, escrever um poema que, aliás, já está até escrito:a volta triunfal
aqui vamos fazer nossa casinha
ali a fábrica não ficará muito longe
uma escola com vista pra montanha
e o templo sem imagem nenhuma
desta vez não vamos sujar o rio
nem inventar leis desalmadas
apenas novamente simples heróis
descobrindo mundos, trocando fraldas

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