Riviera curitibana
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de agosto de 2008
Diogo Cavazotti<br> Equipe da Folha 
Riviera é o termo usado para determinar a região costeira de alguma cidade. Pode parecer estranho, mas Curitiba também tem uma Riviera. Nem de perto se parece com a Riviera Francesa, parte litorânea no Mar Mediterrâneo, também conhecida como Costa Azul (Côte d'Azur), ou a italiana, faixa costeira banhada pelo Mar Lígure (golfo de Gênova). Aqui, Riviera é o nome de um bairro localizado no extremo oeste da Capital, atrás da Cidade Industrial (CIC).
Uma coisa é certa: no Riviera existem mais cachorros que pessoas. Cada casa abriga, em média, três cães. Basta um carro passar que os latidos começam. As ruas de chão batido cercam todo o bairro. Grandes sítios e pequenas residências compõem o visual da região.
Uma das moradoras do bairro é Olga Staniczuzki, 71 anos. Ela veio do interior de São Paulo para morar com a filha, que vive no Riviera desde 2001. Quase não sai de casa, apenas quando necessita ir ao médico ou fazer as compras do mês. Atualmente a filha de Olga está no Rio Grande do Sul, acompanhando o marido em uma viagem de negócios que vai durar sete meses. A única companhia é a do neto, que mesmo assim trabalha e estuda o dia todo. Quem acompanha a rotina de Olga são os dois cachorros da casa, um temido rottweiler e outro vira-lata que também parece brabo.
Olga é o oposto dos cães. Por não ter com quem conversar, aproveita a oportunidade que tem quando encontra alguém. E isso raramente acontece. Para piorar, não existe linha telefônica na região onde mora. ''Sou aposentada e não posso usar o celular toda hora. Sinto muita falta de conversar com meus parentes que vivem em outras partes do Brasil'', reclama.
A luz elétrica só chegou em 2001, quando a filha de Olga lutou até conseguir os postes. O recolhimento do lixo também chegou há pouco tempo, depois de muita insistência da filha. Mas as linhas telefônicas não virão tão cedo. ''Dizem que não colocam pois as pessoas roubam os fios'', conta Olga. Na casa da família não existe água encanada. O abastecimento é feito através do poço e da bomba.
Esta semana a tranquilidade do bairro foi interrompida. Olga acordou de madrugada com gritos de uma mulher pedindo socorro. ''Já tinha escutado mas era voz de adolescente, então acreditei que fosse brincadeira. Mas desta vez era grito de adulto. Mas não sei o que aconteceu'', diz Olga.
Outra moradora do Riviera é Maria Neusa Barbosa Moreira, 57. Ela vive com o esposo e o filho em uma modesta casa de madeira, junto com as galinhas, os porcos e os cinco cachorros. A família quase não sai de casa. Eles tomam conta da casa para a dona da residência, que mora no Centro de Curitiba. Vieram de Guarapuava em fevereiro deste ano, mas ainda não se adaptaram em viver na Capital. ''Os preços daqui são bem mais altos'', reclama.
Mas morar no Riviera tem seus benefícios. A família de Maria Neusa possui uma horta com diversos tipos de verduras frescas. Os carros quase não passam na rua e o silêncio reina no ambiente. Porém, quando algum automóvel se arrisca, tem que ter sorte, já que o trajeto possui muitos buracos. ''Às vezes aparece um povo aí que vem para arrumar a rua. Mas dias depois já aparecem os buracos novamente'', explica Maria Neusa.
A violência ainda não atinge os moradores do Riviera. Perto da casa de Olga existe um pesque-pague e um bar. No inverno, o movimento cai aproximadamente 80%. Então os funcionários nem se preocupam em fechar as portas do estabelecimento quando precisam fazer serviços em outras partes do terreno. Quando chegam, os clientes encontram luz acessa, música e bebida gelada, mas sem atendente. Se tiver paciência e honestidade pode esperar o funcionário do bar chegar para cobrar a conta. Os mais medrosos não se arriscam em ficar lá. O clima lembra uma cidade fantasma abandonada recentemente pela população.


