Rico e pobre lado a lado
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terça-feira, 20 de maio de 2008
Diogo Cavazotti<br> Equipe da Folha 
Alguns bairros luxuosos de Curitiba, repletos de prédios milionários e carros importados, possuem sombras nem tão nobres. Habitações irregulares e favelas andam lado a lado com o crescimento de algumas regiões da cidade. Os bairros Mossunguê e Campo Comprido são exemplos desta diferença. No Campo Comprido, região onde o prefeito Beto Richa reside, as modernas construções estão na fronteira com invasões territoriais. A opinião dos moradores são divergentes. Porém, alguns tentam tirar proveito desta situação para sobreviver.
A catadora de papel Josiane Tavorski vive no Campo Comprido e trabalha três vezes por semana. Durante o serviço ela percorre apenas uma quadra, repleta de edifícios de luxo, e consegue recolher aproximadamente 10 quilos de papelão. Lucra com isso R$ 25 por dia trabalhado. Para Josiane, morar próximo de pessoas com poder aquisitivo alto é um ponto positivo. ''Faço minha renda aqui. Não preciso ir até o Centro para catar papel. Fica tudo perto da minha casa''. A catadora faz do lixo dos ricos sua fonte de renda.
Do outro lado, alguns moradores começam a ver problemas na região. A advogada Léa Bortolon mora em um edifício no mesmo bairro que Josiane. Nestes cinco anos que vive em Curitiba, quando veio de Maringá e se mudou para a região, ela nunca teve nenhuma reclamação em morar no Campo Comprido. Porém, as coisas começam a mudar. ''Ultimamente os carros parados na rua têm os vidros quebrados'', revela. Léa diz que morar na região ficou caro. Os valores do IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano) e dos apartamentos são altos.
A administradora Adriana Bechtold em breve deixará de viver no Campo Comprido. Vai se mudar para o Bacacheri. Grávida de oito meses, ela acredita que a diversidade das classes sociais em um mesmo bairro é importante no desenvolvimento e educação de uma criança. ''Isso é bom para a criança. Ela tem que ver a realidade da cidade. Em duas quadras existem pessoas mais pobres e outras ricas. Não dá para colocar a criança em uma redoma de vidro'', considera Adriana.
O apartamento em que vive com o marido é alugado e está avaliado em R$ 230 mil. Mas a administradora conta que, perto dali, as opções são mais caras. Um edifício localizado na esquina entre as ruas Geraldo Lipka e Professor Pedro Viriato Parigot de Souza está em fase de finalização na construção e possui apenas dois apartamentos disponíveis para venda. Os preços variam entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,3 milhão. São 347 metros quadrados de área privativa e quatro vagas na garagem.
Ivan Carlos Montelanco está desempregado e vive em uma favela no Campo Comprido há 15 anos. Até agora ele não sabe direito o nome do bairro. ''Uns dizem que é Mussunguê, outros que é Campo Comprido. Agora estão falando que se chama Bom Menino'', diz. Segundo ele, a Prefeitura de Curitiba realizou um mapeamento na região para transferir os moradores com situação irregular para outro bairro. A Prefeitura vai ceder o terreno e a Caixa Econômica fará o financiamento das casas.
Montelanco não queria sair da região. Ele diz que ali existem pessoas boas e ruins. Mas para quem não conhece, acha que a favela abriga apenas bandido. ''Se a prefeitura quer que a gente saia, a pressa é deles. Mas estão enrolando. Não sabemos quando vamos ter que sair. Nas reuniões eles dizem para entrarmos no site para acompanharmos o processo. Mas muitos daqui não têm acesso à internet'', reclama.
A lei diz que no espaço de até 15 metros da margem de um rio não podem existir construções residenciais. Porém, na beira do Rio Barigui, que corta o bairro Campo Comprido, casas já ultrapassaram a margem e são sustentadas com fundações em madeira com a base dentro d'água. Por algumas estarem em situação irregular ou em invasões, terão que sair. As duas únicas casas que pagam IPTU na região poderão ficar lá.
No Bairro Alto acontece fato semelhante. Casas caras e barracões de madeira dividem a mesma região. A residência da família do desenhista Sandro Borato foi construída há 65 anos e é a mais antiga do bairro. Nestas décadas, a família acompanhou o progresso da região. Quando criança, Borato banhava-se no Rio Atuba e pescava frequentemente por ali. Hoje isso é impossível. Com o crescimento da região a população chegou e, consequentemente, as invasões começaram. O desenhista vive na Rua José Veríssimo, principal rua do bairro. A duas quadras da casa dele a violência aumenta. ''Eu não compraria uma casa mais pra dentro do bairro. Os moradores têm medo'', explica.
Vizinha de Borato, a comissária de vôo Sônia Caruso vive em um sobrado há poucos meses no bairro Alto mas já sabe de casos de assalto em casas perto da dela. Ela morava em um apartamento e ainda se acostuma a viver em uma casa. A residência de Sônia é equipada com cerca elétrica, mas mesmo assim se preocupa em morar perto de uma favela. ''Para eles deve ser ruim viver com casas melhores por perto. Acredito que deveria ser criada uma melhor estrutura na região que habitam. Muitos não têm nem água encanada. Para mim é ruim dividir o mesmo bairro por causa da violência. Meus vizinhos já tiveram a casa invadida''.


