Revolta também foi marcada por xenofobia, diz pesquisador
Duas pessoas morreram e 120 lojas foram depredadas durante os três dias do tumulto que se expandiu para além dos limites da Praça Tiradentes. Leonor dos Santos Zeim, a dona Lola, de 73 anos, lembra que viu a banca de revistas da família ser virada na Praça pelos manifestantes e diz que o prejuizo só não foi maior porque um comerciante vizinho alertou os rebelados que os proprietários não eram de origem árabe. ''Eles iam quebrar tudo. Tudo o que era loja de turco eles quebraram. Naquele tempo era muito racismo'', conta Lola, que continua trabalhando na banca de revistas, mas agora em outro endereço, na Avenida Marechal Deodoro.
No fim dos anos 50, o comércio da Praça Tiradentes era chamado de ''Turquia'' em referência à forte presença de comerciantes árabes ali. De acordo com o pesquisador Jamil Zugueib Neto, da Universidade Federal do Paraná, a Guerra do Pente pode ser situada como um marco social na história de Curitiba, e também do Brasil, como um evento de massa xenófobo e que teve como alvo a colônia árabe. Mas não é representativo de um estado beligerante contra o estrangeiro.
''Ela desperta uma curiosidade por ter sido deflagrada em uma cidade pacata, introvertida, religiosa e de acentuada cultura alemã e de ordeiros poloneses. Na história da cidade já tinha havido um movimento de recusa de aceitação de alguns imigrantes que viriam do Iraque em torno dos anos 1920. Mas esta recusa não passou de protestos ventilados na imprensa daquela época'', explica o pesquisador. ''Através deste evento, pode-se perceber e analisar um pensamento popular contra os árabes e que também se estende de outras maneiras a outros representantes de etnias estrangeiras (alemães e japoneses, por exemplo)'', completa o professor.
A hostilidade dirigida à comunidade árabe em Curitiba ganhou as primeiras páginas dos jornais locais, foi noticiada pela imprensa nacional (''Curitiba perdeu a cabeça por causa de um pente'' foi a manchete da revista Cruzeiro) e repercutiu inclusive fora do país, como ressalta Zugueib. ''Segundo depoimentos que colhi, até mesmo Gamal Abdl Nasser, então o grande líder árabe e presidente do Egito, chegou a apelar, nos seus discursos pela rádio local, que as autoridades defendessem a colônia árabe de Curitiba. Houve também matérias publicadas em Beirute'', conta o pesquisador.
Embora a repercussão tenha sido grande, a revolta não teve nenhum desdobramento, segundo Zugueib. ''É bom sublinhar que mesmo a família dos árabes envolvidos 'esqueceram' estes acontecimentos e interpretam-no como fatos provocados por bandoleiros'', afirma. (D.R.)





