REVERSO
De CuritibaSe o passeio turístico serve para mostrar a organização urbana de Curitiba, parte da mesma programação é usada para estudar as contradições que os cartões postais podem esconder. Olga de Freitas Firkowski, 37 anos, professora de geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), criou um passeio alternativo pela cidade dirigido a alunos e colegas de outros Estados.
Uma das propostas é discutir como projetos do poder público aliam interesses distintos: o bem-estar da população e casos de especulação imobiliária. Ela cita os parques Tingüi e Tanguá para sustentar o seu ponto de vista. Ambos foram instalados em terras que aparentemente não tinham valor. Depois que os parques ficaram prontos, luxuosos condomínios residenciais apareceram em seus entornos.
Você acaba usando um parque público, feito com o dinheiro do contribuinte, para valorizar um empreendimento privado, resume Olga. A professora não contesta a utilidade dos espaços de lazer, mas critica a proximidade entre os anseios públicos e particulares numa mesma região. A questão ecológica dos parques serve para cobrir outros interesses.
Olga acredita que a propaganda irradiada sobre o sucesso de Curitiba se volta contra a cidade e a região metropolitana. Segundo ela, o resultado é a migração, para a Capital, de famílias que querem conquistar dias melhores. Na chegada, a professora lembra que a falta de espaço obriga os migrantes a se instalar em municípios limítrofes, desestruturados para acolhê-los.
O que se faz em termos de planejamento em Curitiba é empurrar os problemas para outros municípios. Assim teremos uma cidade com parques e transporte coletivo de primeira qualidade, mas com muitas deficiências em outras regiões. Se essas contradições não forem trabalhadas, vão comprometer Curitiba daqui a 20 anos, alerta Olga. Para a professora, um dos processos que já vem sendo observados é o da segregação branca.
O bairro Campo Comprido se enquadraria nesta condição. Olga diz que os critérios para a ocupação do solo no bairro sofreram mudanças. O que seriam terras destinadas a conjuntos habitacionais populares transformaram-se em áreas nobres, que concentram edifícios de alto padrão, com amplo espaço entre um prédio e outro, fato raro nos bairros próximos.
O processo de planejamento da cidade está produzindo áreas que nem todos podem pagar, afirma Olga. E quem não tem condições de custear a compra de uma moradia acaba invadindo. Foi o que aconteceu em áreas da Cidade Industrial de Curitiba (CIC). Desde a sua criação, em 1973, Olga conta que a região produziu um paradoxo.
Baseada em dados do Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba) e Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Olga conta que as empresas estão presentes em apenas 31% de sua área. O plano seria ocupar 57% dos 43 milhões de metros quadrados que formam a CIC. Outra descoberta refere-se à situação habitacional. As casas se espalham por outros 31% da CIC, mas no projeto original esse índice ficava limitado a 15%. Muitas áreas foram subocupadas e acabaram sendo invadidas. (D.V.)





