Retrato africano emociona público
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quarta-feira, 18 de março de 2009
Diogo Cavazotti<br> Equipe da Folha 
O Festival de Curitiba começou e os destaques despontam na mostra paralela Fringe. Um deles é a peça "Amêsa", que estreou ontem na programação e segue com mais sete apresentações. Escrita pelo angolano José Mena Abrantes, a personagem relata a história de sua vida na Angola, com despedidas, solidão, amor e morte. Logo na entrada, o público é recebido com uma tocante cantiga do país, interpretada pela atriz Heloísa Jorge, natural de Angola.
"Amêsa" é um dos raros exemplos de espetáculo em que a luz afinada e o cenário contribuem para enriquecer o trabalho da atriz. Assim, ela pode abusar do trabalho de corpo e voz e transportar o público para a Angola em que viveu, com a Guerra Civil e a morte da família. A narrativa parte não dos fatos, mas das marcas que ficaram no corpo e na alma da personagem, que simbolicamente revela as lembranças de uma Angola que ainda grita a dor da guerra.
O espetáculo estreou em Salvador no mês de dezembro. O processo de pesquisa e ensaio utilizou da memória de Heloísa para enriquecer ainda mais o texto do experiente Abrantes.
"Cada dia de espetáculo é um ritual. São as lembranças da própria atriz no palco", conta Everton Machado, integrante da Companhia de Teatro Gente. "Meu pai gritou e me deixou sozinha, com o silêncio que há dentro de mim", diz a personagem Amêsa.
É a segunda vez que a Companhia se apresenta no Festival de Curitiba. Em 2007 eles encenaram "Barrela". Este ano o grupo também trouxe "Fragmentes", uma criação coletiva resultado de um processo de oito meses de pesquisa e laboratório.
O autor
José Mena Abrantes é angolano e viveu exilado na Alemanha Federal de 1970 a 1974, ano em que regressou definitivamente para Angola e se tornou jornalista. Faz teatro há mais de trinta anos. Dirige o grupo Elinga-Teatro, que participa com regularidade de festivais de teatro na África e Europa. Publicou até hoje doze obras teatrais e ganhou por três vezes o Prêmio Sonangol de Literatura, na Angola. Abrantes viveu alguns anos da guerra pela independência de Angola e acompanhou a guerra civil que se iniciou logo após a independência.


