RETORNO DOS DEKASSEGUIS
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sábado, 08 de agosto de 2009
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Além do impacto econômico, volta dos migrantes cria embaraços culturais; solução pode estar em acordo internacional
Assaí O vermelho vivo da terra norte-paranaense ainda causa estranheza na adolescente brasileira Viviane Lissa Matsumoto, 14 anos, mas aos poucos ela vai se acostumando às novas cores de Assaí (Norte), sua atual morada. Sem falar e entender o português, a menina retornou do Japão no início do ano com os irmãos Sérgio Kiyoshi, 10, e Cristiane Hiroko, 5, e a mãe, a brasileira Arlete Fernandes Cardoso Matsumoto, 37, e desde então a família tem enfrentado desafios que a própria prefeitura se diz despreparada para resolver.
A história desta família se confunde com a de outros cerca de 1,7 mil assaienses descendentes de japoneses que se lançaram no sonho de fazer a vida do outro lado do mundo, mas acabaram surpreendidos pelo pesadelo da crise econômica global. Sem dinheiro e sem trabalho, a única saída foi o retorno imediato.
O regresso atingiu em cheio o município de Assaí, considerado o mais japonês do Brasil: 38% da população de pouco mais de 16 mil habitantes têm descendência oriental. Na bagagem, quase todos trouxeram somente a desilusão de uma experiência malsucedida. Alguns, retornaram com os únicos bens que a ida para o Japão lhes proporcionou: os filhos.
O prefeito Michel Bomtempo comenta que tal condição gerou situações bem particulares. Primeiro que a saída de moradores para o Japão fez diminuir a fatia do bolo de repasses do Fundo de Partipação dos Municípios (FPM) porque o cálculo é baseado na demografia. A queda de 0,12% para 0,10% representou uma perda de R$ 300 mil mensais.
Com a crise econômica, as remessas de recursos que eram enviadas do Japão para os familiares que permaneceram na cidade também ralearam. Conforme o prefeito, o total de dinheiro remetido que já passou dos R$ 5 milhões caiu atualmente para praticamente zero.
Eles mandavam dinheiro para as famílias e isso girava no comércio, na compra de imóveis, de carros. Com a crise, pararam de enviar e começaram a retornar. O prefeito lembra que os burocratas não previam o retorno em massa e isso trouxe dificuldades também para a prefeitura, que não dispõe de estrutura para absorver tal demanda.
Problemas psicológicos
Bomtempo observa que os desafios econômicos não são os únicos nem os mais graves a serem enfrentados. A Secretaria Municipal de Educação está tendo que lidar com um problema tão ou até mais sério: diversos dekasseguis viajaram com filhos pequenos ou se casaram e formaram família no Japão e estas crianças estão retornando sem dominarem o português. Por causa dos altos custos do ensino particular no Japão, muitos pais não tiveram outra opção a não ser matricular seus filhos em escolas públicas, que oferecem apenas o japonês.
A prefeitura, segundo Bomtempo, está enfrentando problemas estruturais para receber estas famílias que chegam sem dinheiro, desadaptadas à realidade local e até mesmo com problemas psicológicos.
Estamos nos empenhando para poder dar um atendimento especial aos recém-chegados, principalmente no que diz respeito a um acompanhamento psicológico, mas falta verba, explica o prefeito, lembrando que os gastos extras não estavam previstos no orçamento.
Ao tomar conhecimento da situação, o governo japonês enviou há cerca de uma semana duas pesquisadoras para ouvir esses dekasseguis. A professora brasileira que trabalha na rede pública de ensino no Japão, Erica Muramoto, e a professora norte-americana Cheiron McMahill, também radicada no Japão e que preside o Instituto de Pesquisas em Educação Multilingue, visitaram escolas e as famílias que retornaram e as escolas de Assaí e constataram que é preciso agir. Tanto que estudam a possibilidade de viabilizar uma parceria entre Brasil e Japão para ensinar o idioma japonês nas escolas de Assaí em que há orientais e o português nas escolas japonesas onde existam brasileiros.


