À meia-noite e quarenta e seis minutos do último dia dos índios na Reserva do Cambuí, as luzes estavam acesas. "Para espantar os mosquitos", explica Carlos Luiz dos Santos, 40, o cacique Cajer Xanuí. Nove minutos antes, às 12h37, ele colocava ponto final no discurso que leria às 9h49 da manhã do dia seguinte na inauguração de Kakané Porã. O espaço de fala, ele dividiria com a presença de diretores de órgãos que participaram das negociações e também de políticos, alguns dos quais caíram de pára-quedas ali. "Tem um que não ajudou em nada. Depois vou conversar em particular com ele. O certo é aparecer não apenas nos momentos bons, mas também nos ruins", opina.
As famílias saíram do Cambuí em dois ônibus, alguns carros e uma kombi. "Aqui tinha muita insalubridade. Um calor terrível", lembra a xetá Indioara Luiz Paraná, 37. Ela vai viver com seus filhos, irmãos e sobrinhos em Kakané Porã. No Cambuí, alguns dos quartos adaptados não tinham sequer janelas, necessitando de energia elétrica durante todo o dia. O da guarani Inês Fernandes, 29, tinha um tapete como parede. Na nova aldeia, as casas não têm muros, mas são separadas por um jardim. No da casa da vice-cacique Jovina Renh-Ga, 40, ela já plantou flores e um pé de amora e outro de mexerica. Jovina é uma das primeiras mulheres a ocupar a função no Paraná. Sua família é exemplo da modernização das aldeias: tem três filhos e é casada com Valdir de Oliveira, 37, que não tem antecedentes indígenas.
O cacique Cajer, porém, já avisa. "O que está já está. Mas não posso aceitar novos casamentos assim. Se não, vou contra os costumes das outras aldeias", diz. "Daqui para frente, se alguém daqui quiser casar com um não-índio, terá de procurar outro lugar para viver." Em seu discurso, Cajer deu importância à idéia de que Kakané Porã seja auto-sustentável. "Por enquanto, ainda dependemos de doações e políticas públicas, mas queremos caminhar com as próprias pernas." A principal fonte de renda é o artesanato. Por isso mesmo, as casas construídas pela Cohab têm uma varanda, pensada para ser um espaço para o fabrico do artesanato - além de manter o sentimento de integração entre as famílias, também presente na oca, disposta no centro do terreno e que faz as vezes de um centro de convivência.
Segundo levantamento feito pela Cohab em março, 63% dos casais declararam ter renda de até R$ 700. Outros 16% disseram não ter renda alguma. Como os que têm trabalho formal são muito poucos (16%), há três idéias para desenvolver a sustentabilidade de aldeia. Um: uma cooperativa de artesanato, visando a exportação. Dois: a criação de um herbário para ervas medicinais e medicamentos. O cacique Cajer sugere que o impeditivo, neste caso, seria o alto custo do projeto (R$ 250 mil). Três: por fim, uma fábrica para a produção de bolsas biodegradáveis. "Quando íamos procurar um emprego, não havia um endereço para dizer que era nosso. Agora, não temos apenas um lugar que é nosso, mas também uma moradia digna." (R.U.)

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