Michel WillianEm ‘‘Viva o Povo Brasileiro’’, a maquiagem ajudou a traduzir o efeito dos figurinos de Alexandre Rousset e Josana MatediAs cortinas se abrem, a luz se acende. No palco, antes de os atores começarem a representar, são os figurinos e o cenário que traduzem a cena. Mesmo sem palavras, pode-se formar uma idéia da época em que se passa a história, da idade dos personagens e de sua posição social, graças aos trajes por eles usados.
Elaborar um figurino é tarefa que exige criatividade mas também extensa pesquisa. Em uma peça histórica, principalmente, corre-se o risco de fazer o belo, mas fugir à realidade da época. ‘‘Três coisas são fundamentais durante a concepção de um figurino’’, explica Lola Tolentino, responsável pelos trajes da peça ‘‘Do Fundo do Lago Escuro’’. ‘‘Saber o que se usava na época em que se passa a história, atentar para onde ocorre a cena e considerar o temperamento dos personagens’’.
Jorge Éder‘‘Um Moliere Imaginário’’ prezou o efeito onírico nos figurinos de Wanda Sgarbi, com tons de lilás e muito filó e tule
No caso de ‘‘Do Fundo...’’, os dez figurinos (um para cada personagem) recuperam os anos 50, com tonalidades de rosa e lilás para as mulheres, ternos tradicionais para os homens e uniformes para o jardineiro e a empregada. ‘‘Além de pesquisar em livros e revistas daquela década, também apelei para a minha própria lembrança de adolescente’’, diz Lola.
Não pôde fazer isso o figurinista Marcelo Olinto, que assina os figurinos do épico Tristão e Isolda. Ele teve que procurar suas referências bem mais além. Tudo nas roupas sugere uma cultura longínqua no tempo e no espaço. Duas marcas são fortes: o espírito bélico e a influência oriental.
A história se passa na Irlanda e recria o mito que deu origem a Romeu e Julieta. ‘‘Tudo na montagem visa reviver esse mito, tem uma conotação de ritualização’’, explica o diretor Enrique Diaz. O couro vegetal, invenção bem-sucedida de Marcelo Olinto para a peça ‘‘A Morta’’, volta a ser usado nas roupas dos guerreiros da Cornualha, que agora recebem aplicações metálicas, colares de dentes, pedrarias e mangas de tecido que parece fralda.
Michel WillianInspiração oriental para os vestidos das damas irlandesas de ‘‘Tristão e Isolda’’, que remetem a uma cultura longínqua
A mistura entre oriente e ocidente é visível. Os vestidos femininos lembram quimonos japoneses, os aparatos masculinos remetem a samurais. Para não repetir o estereótipo do cavaleiro medieval, Marcelo Olinto optou por variações no mínimo contemporâneas: o estilo das calças dos guerreiros parece com as dos pilotos de motocross.
Ler com olhos contemporâneos o estilo que conduz a trama de uma peça, criando figurinos que dêem ao espectador a sensação de ‘entrar’ dentro da história, é uma arte que não depende só de tesouras e agulhas, mas muito de sensibilidade e bom gosto.

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