Renda da droga não pode ser desfrutada
A vida de quem está no comando do tráfico na favela pode ser tão simples quanto a do vizinho que ganha o salário mínimo trabalhando.
Para não chamar a atenção da polícia e dos delatores, essas pessoas se esquecem de ter o conforto que nunca tiveram, as contas bancárias, as roupas de grife, os restaurantes caros. Carro, nem pensar, ''é sujeira, vacilo''. Na vida noturna, nada de point de ''playboy'', substituídos com prazer pelo bailão mais próximo. Circulam pela favela naturalmente e são solicitadas para ajudar em compra de remédios e botijões de gás.
Dificilmente vão à cidade. Quando vão, usam táxi. Viajam muito, às vezes para acertar novos carregamentos. E às vezes têm um dos únicos prazeres que podem desfrutar sem culpa: ir ao litoral e curtir uma temporada na praia.
''O dinheiro não dá para guardar. Tem que pagar advogado, os gastos na cadeia, os filhos e as pessoas que ajudam a embalar e vender a droga'', conta a comandante de uma das bocas mais frequentadas de Londrina.
''Dá pra tirar uns R$ 20 mil por mês, só não dá pra desfrutar. As vezes é melhor ganhar menos e ficar sossegada'', compara a jovem de menos de 20 anos, lembrando que os períodos de vacas gordas no comércio de drogas em Londrina são as festas de final de ano, o Carnaval e a Exposição Agropecuária, quando a cidade recebe muitos visitantes.
A garota tem dois filhos. O marido e o pai estão presos. ''Gasto muito com eles, pago os policiais e os carcereiros para visitar na hora que quero e compro roupas para ele (o marido) ficar bem vestido. Mesmo na cadeia, ele continua vaidoso''.
O rosto dela não é conhecido pelos consumidores ''Só os mais chegados e os da favela pegam comigo'' , mas é popular no bairro e em toda a periferia. É espelho para as meninas da favela, que a olham com admiração e lhe pedem emprego.
Nunca atirou. Não tem armas. Diz não gostar do tráfico, mas já fumou muita pedra, como quase todas as adolescentes de sua comunidade. Parou, prometendo resistir e não ter recaídas como nas outras tentativas. ''Caiu'' (foi presa) uma vez, quando era menor de idade e nunca mais foi importunada.
As mulheres no comando representam um fenômeno recente, mas que tem tudo para se consolidar. ''Os 'homi' dificilmente desconfiam de uma mulher como chefe do tráfico. Daí é mais seguro''.





