Em um mundo cada vez mais tatuado, nem todos se orgulham de seus ornitorrincos, alvos e celebridades. Muitos que fizeram suas ''tattoos'' por impulso ou simplesmente mudaram de idéia, agora procuram correr atrás do prejuízo. Para se ter uma noção, quase um terço do trabalho dos profissionais da área já se destina à reforma e cobertura de desenhos antigos.
O número de arrependidos é tão grande que alguns tatuadores têm se recusado a fazer determinados desenhos. Principalmente nomes de namorados, os campeões no quesito remorso. Guilherme Bokka, dono de um estúdio no bairro Água Verde, lembra de um cliente que aprontou com a noiva e decidiu homenageá-la na pele como forma de se desculpar. ''Apostei que, em seis meses, ele retornaria para cobrir a tatuagem. Três semanas depois, o cara já estava aqui de volta''.
Por essas e outras, Bokka parou de tatuar nomes femininos. Símbolos controversos, como suásticas e o número da besta, também estão fora de cogitação. ''Me nego a fazer porque a pessoa não vai ganhar nada com isso. E tatuagem é uma arte, um ritual. A imagem deve ter uma representatividade por trás'', afirma.
No momento, o tatuador tenta convencer o cobrador de ônibus Vilson a não aumentar o desenho maori que tem na cabeça. ''Ele quer descer para a testa, mas vai ficar muito agressivo'', conta. E diverte-se: ''Tenho de aprender um jeito de impedir que os clientes façam besteira''.
A comerciante Leiry Andrade, 25, é cliente assídua do estúdio Bokka Tattoo. Sua meta é cobrir três tatuagens de 10 anos atrás. ''Além de serem mal-feitas, elas deformaram depois que eu engravidei'', justifica. Enquanto reforma as antigas, Leiry não pára de fazer tatuagens novas. Há duas semanas, cravou na pele a frase ''Meu filho, minha vida''.
Para evitar arrependimentos, o estúdio Teix adotou um expediente comum no exterior: simular o desenho no corpo do cliente por meio de computação gráfica. ''Se a pessoa estiver segura, a gente faz'', diz Jô Maciel, que administra a loja.
Seu marido, Marco Texeira, é o principal tatuador do local, mas Jô não encara a atividade como uma forma de arte. ''Salvo algumas exceções, vejo a tatuagem como uma prestação de serviço. O tatuador pode até buscar referências artísticas, mas faz um trabalho comercial. Por isso, não nos metemos na vida dos outros.'' (O.G.)

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