Há 100 anos, em 1904, o joalheiro francês Louis Cartier e o brasileiro Alberto Santos Dumont desenharam o primeiro relógio masculino de pulso, com pulseira de couro - antes, apenas mulheres portavam relógios no pulso, na forma de brilhantes pulseiras. Os homens usavam relógios de bolso. Desde a criação da dupla Cartier-Santos Dumont, a indústria relojoeira não parou mais de produzir relógios de pulso. São milhões de unidades para abastecer um mercado que, a exemplo dos ponteiros, não pára nunca.
Só os relógios de luxo, onde se inclui o modelo Santos Dumont, da Cartier, vendido no País ao preço médio de R$ 10 mil, fazem girar US$ 7 bilhões por ano no mundo. No País, o consumo deles ainda é pequeno, diz o diretor-geral da Montblanc no Brasil, Freddy Rabbat. Mas o potencial de crescimento é ilimitado. ''É um mercado que gira em torno de 0,5% a 1,5% das vendas globais e oscila de acordo com o câmbio, ou seja, quanto vale o real em relação ao dólar.'' E para a alegria de Rabbat, o consumo cresce a taxas superiores ao Produto Interno Bruto (PIB), porque os relógios são jóias que todos gostam e usam.
Desde 1997 produzindo relógios - são 200 mil para abastecer o mundo -, a Montblanc comemora o sucesso da diversificação dos produtos que carregam a grife. ''Temos, no Brasil, mais de 250 mil usuários de canetas Montblanc. Os relógios fazem parte de um projeto de diversificação que está dando certo em todo o mundo. No País, a venda de relógios já responde por 35% do negócio e logo chegará a 50%.
Os relógios Montblanc, que Marcelo Pino, gerente de uma loja de grife, mostra com indisfarçável orgulho aos consumidores, podem custar até R$ 111 mil. Mas réplicas falsificadas, quase idênticas, podem ser compradas, nas inúmeras barracas de camelôs espalhadas pela cidade, a R$ 10,00. Esses relógios movimentam em todo mundo também cifras próximas a US$ 7 bilhões - são os chamados ''negócio da China'', de onde saem a maioria. Dão dinheiro a ambulantes, mas tiram o sono da gerente de Marketing da Cartier no Brasil, Veronique Claverie. Os Cartier, especialmente os femininos, são os campeões da falsificação.
Veronique conta que a empresa dispõe de um escritório de advocacia em São Paulo, com 15 fiscais, mas reconhece ser difícil combater a pirataria. Em contrapartida, garante que um Cartier legítimo é outra conversa, é um objeto de sedução. O modelo Santos Dumont, com os parafusos à mostra, está entre os relógios mais versáteis da Cartier.
Na mesma categoria de um Cartier estão os Bvlgari, Rolex, Tiffany & Co., Patek Philippe, Rado, Fendi, Gucci, TAG Heuer, Baume & Mercier, Longines e Piaget. Todas alvo de pirataria. A Rolex, por exemplo, tem uma produção anual de 400 mil relógios. ''É isso que torna esses produtos exclusivos'', afirma Rabbat. A Tiffany's, que, no Brasil e em particular em São Paulo, tem duas lojas, também aposta nessa exclusividade para vender os modelos que fizeram a atriz Audrey Hepburn suspirar no filme Breakfast at Tiffany's (Bonequinha de Luxo).
Mas se a Suíça é a pátria dos relógios, de onde saem 70% dos modelos de luxo, inclusive Montblanc e Cartier, além dos tradicionalíssimos Rolex e Baume & Mercier, no Brasil essa produção está centrada em Manaus, onde ficam os dez maiores fabricantes, entre os quais a Goettems, único fabricante de luxo no País. Os demais produtos são importados e outros entram no País via Paraguai. No ano passado, segundo números da Associação dos Joalheiros e Relojoeiros do Rio de Janeiro (Ajorio), as vendas no atacado de Manaus somaram R$ 395 mil.
Nem o modelo criado pelos suíços para combater a pirataria e tornar os relógios mais populares, o Swatch, escapa da fúria dos falsificadores. Esse modelo, lançado por Nicolas Hayek, de 76 anos, foi a ponta de lança do Swatch Group em 1985 para enfrentar a concorrência dos asiáticos que ameaçavam seu império de marcas como Breguet, Blancpain, Longines, Rado, Tissot, Mido, Omega e Pierre Balmain. Detalhe: o modelo se tornou tão popular que acabou vítima do próprio sucesso. Em camelôs um Swatch falso, de origem asiática, sai por R$ 10, enquanto que o verdadeiro tem preços que vão de R$ 70 a R$ 250.

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