Relato é painel histórico
Reprodução Agência Estado‘‘Isto é da pequena’’, respondeu a índia a quem perguntamos se queria vender o seu pote’’, diz a legenda originalO relato de Levi-Strauss, denominado ‘‘Com Os Selvagens Civilizados’’, é sobre o outro lado do paraíso – o lado dos que são expulsos dele com a chegada da civilização. Escrito há mais de 60 anos, o texto continua contudente e atual. Mostra o fracasso da experiência brasileira, assim como da asiática, da africana e da americana, de se impor a civilização aos indígenas. ‘‘Destroem-se os povos primitivos tentando civilizá-los’’, diz.
O que Levi-Strauss encontra são índios que não se adaptam à civilização, mas também não conseguem mais voltar inteiramente à sua cultura original, da qual sentem vergonha. ‘‘Os índios daqui são mais civilizados do que se espera e mais selvagens do que se imagina. Realizam plenamente essa experiência sociológica – tão frequente sem dúvida no Brasil, porém tão mal estudada – de primitivos a quem se impôs uma civilização para, a seguir, abandoná-los a si mesmos’’. (Leia mais um trecho de Strauss sobre os índios na página 3 deste caderno).
As recomendações feitas pelo antropólogo no final do texto, sobre como tratar os índios, estão sendo adotadas agora no Brasil e em outras partes do mundo. Antes de voltar para a França, em 1939, Levi-Strauss ainda saiu à procura de índios menos afetados pela civilização. Encontrou-os nas florestas matogrossenses, entre Cuiabá e Porto Velho, onde passou seis meses, comendo carne de papagaio.
Os relatos da visita dos franceses foram publicados em agosto de 1935, no ‘‘Suplemento em Rotogravura’’, um encarte do jornal ‘‘O Estado de S.Paulo’’. A rotogravura era naquela época o que se poderia chamar de estado da arte da impressão. E o suplemento constituía uma espécie de vitrine dessa arte, sempre recheado de muitas fotos, retratando especialmente as festas da alta sociedade paulista, e pouquíssimo texto. A edição foi escolhida para abrigar o testemunho dos três intelectuais justamente porque eles voltaram do Norte do Paraná carregados de fotos. Aquela edição saiu com mais de 90 fotos da região.
A escolha do ‘‘Estadão’’ também se deveu ao fato de seu diretor de Redação, Julio de Mesquita Filho, ser um dos incentivadores e patrocinadores da viagem. Ele tinha estreitas relações com a USP, de cuja criação participou de maneira destacada. Mesquita também foi um dos principais defensores da idéia de que a escola, destinada a formar a elite paulistana, deveria contar com professores europeus.
O resultado final da viagem, com textos e fotos, é um painel histórico, um documento ainda pouco divulgado.

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