Relação com o poder desde o primeiro jornal
Nos anos 70, um repórter da Folha de Londrina tenta entrevistar o prefeito de Nova Fátima (31 km ao sul de Cornélio Procópio) e ouve uma recusa. O político se justifica: ''É que estou com pouco dinheiro em caixa. Sabe como é, a gente dá uma declaração e os jornais mandam a fatura depois''. O jornalista só consegue sua entrevista depois de esclarecer que é repórter da Folha de Londrina, que está fazendo a cobertura de fatos do interior paranaense e não está cobrando nada por isso. Mas por garantia, o prefeito opta por ser econômico até nas palavras.
O episódio é um dos muitos lembrados pelo jornalista Widson Schwartz, 64 anos, para demonstrar a relação entre imprensa e poder no Paraná. Detentor de memória e senso crítico notórios, nos últimos anos Schwartz tem se dedicado a um trabalho de ''jornalista-historiador'', cavando fatos e personagens surgidos ao longo dos 70 anos da cidade. Ele mesmo testemunhou boa parte dessa história, tendo sido locutor nas rádios Difusora Paraná e Tabajara, correspondente do jornal O Estado de São Paulo, além de desempenhar as funções de repórter, editor e colunista da Folha de Londrina e outros jornais. Na Folha, trabalhou de 1970 a 1987.
Schwartz assinala que a relação com a política já estava presente no primeiro jornal londrinense, o ''Paraná Norte''. ''O primeiro prefeito eleito em Londrina, Willie Davids, era diretor técnico da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) e, naturalmente, o jornal apoiou sua candidatura'', explica.
Com a redemocratização do País a partir de 1945, afirma o jornalista, a imprensa passou a defender os partidos políticos, que eram mais fortes na época. ''A Folha, por exemplo, se identificou com o trabalhismo, destacando Getúlio Vargas na primeira edição'', observa. As próprias siglas lançavam periódicos, caso de ''O Município'', fundado pela União Democrática Nacional (UDN) nos anos 50.
Segundo Schwartz, o primeiro jornal diário de Londrina nasceu da frustração de um cidadão por não poder falar de políticos em outro veículo. ''Um dia o Otávio Maia, que era inspetor federal de Ensino e locutor de rádio, estava fazendo política no ar e disseram a ele que não podia criticar o prefeito. Ele decidiu, então, criar um jornal próprio, para poder fazer suas críticas'', destaca, se referindo ao ''Correio do Norte'', fundado em dezembro de 1946.
Em pequenas cidades, de acordo com o jornalista, até a década de 80 foram muito comuns os acordos entre prefeitos e chefes de sucursais de jornais. Frequentemente, isso resultava na omissão de fatos importantes, que só vinham à tona caso a bomba explodisse em nível nacional. Com o início da ditadura militar em 1964, instaurou-se a censura policial e a auto-censura, tornando raro o jornalismo mais crítico e de denúncia. FN62>(V.N.)





