Reinado ainda é das eternas marchinhas
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Pelo menos uma de cor, todo mundo sabe. Se forçar um pouco mais a memória é bem capaz de sair uma inteirinha, inteirinha. Ah! As marchinhas de Carnaval. Surgem tendências, nádegas idolatradas pela mídia, boçalidades expelidas por dials de rádios, os escambaus, mas elas - as marchinhas - ainda são cantadas por gargantas das mais diversas idades. E não adianta torcer o nariz. Um exemplo: Mamãe eu quero. Até pedra canta. Mais uma: Cabeleira do Zezé. Essa, então, até quem é transviado convicto cantarola com os dedos indicadores levantados. E tudo começou em 1899 quando uma iluminada - Chiquinha Gonzaga - botou a sua Ô Abre Alas na boca do povo. E quando se cai na boca do povo, ai, ai, ai.
Pois bem, as marchinhas. Compasso binário. Já era assim com Ô Abre Alas mas ganhou vigor no andamento a partir da década de 20. Um detalhe: por influência do jazz (que, olha só, trinta anos depois iria contribuir para um dos movimentos mais importantes da MPB, a Bossa Nova) que disparava suas improvisações nos rádios. Mas, se é que é para fincar uma data, foi da década de 30 em diante que as marchas tomaram de vez salões e ruas.
Toda década e seus reflexos têm seus nomes. Os principais compositores, Braguinha (ou João de Barro), Lamartine Babo, Nássara, Joubert de Carvalho, Mário Lago. Pérolas surgiram - Taí (Joubert de Carvalho), O Teu Cabelo Não nega (Lamartine Babo), Cidade Maravilhosa (André Filho), Mamãe eu Quero (Vicente Paiva e Jararaca).
Um capítulo à parte deve ser aberto a Braguinha, lenda viva do Carnaval brasileiro. Foi ele o maior - ou um dos maiores - responsáveis pela profusão das marchas carnavalescas. Estreou no metier no Carnaval de 30 com a pouca conhecida Dona Antonha. Sucesso absoluto mesmo aconteceu quatro anos depois com Linda Lourinha, gravada por Sílvio caldas.
Polêmica em 38. Com seu parceiro Alberto Ribeiro, Braguinha ganhou o Carnaval com Touradas em Madri mas foi desclassificado sob alegação de se tratar de um ritmo estrangeiro - o paso doble. Para concorrer novamente, inscreveu às pressas As Pastorinhas (versão modificada de Linda Pequena, de Noel Rosa). Ganhou.
Todo mundo canta, mas poucos sabe que é dele, por exemplo. Chiquita Bacana (com Alberto Ribeiro, de 49), Pirata da Perna de Pau (47), Vai Com Jeito (50) e, claro, Balancê, de 1930, que passou despercebida mas que arrebatou o Brasil em 79 com a regravação memorável de Gal Costa.
DemocraciaAs marchinhas ainda sobrevivem senão nos salões pelo menos no repertório individual que fiéis súditos do Rei Arlequim e da Rainha Colombina. Vão ganhando o saudável gosto de saudosimo, de uma época em que serpentina e confetes eram gêneros de primeira necessidade a qualquer folião de carteirinha.
As marchinhas, como o próprio nome diz, fizeram e ainda fazem as mais contrastantes etnias - ou seres de opostas condições sociais - marcharem abraçados salão a fora. É odalisca com pirata, havaiana e sua saia de nylon desfiada com sheiks árabes, é presidiário com bailarinas, baianas com palhaços, superhomem com mulheres-maravilha e, claro, mulheres barbadas e suas respectivas esposas constrangidas.
Com o tempo, as marchas carnavalescas foram ganhando um pouco mais de picardia. Ou seja, o lirismo e/ou exalatação a algo ou alguém foram ganhando elementos do cotidiano. Mas, lirismo e picardia conviveram perfeitamente bem. Se se sofre por amor ao cantar Bandeira Branca (Max Nunes-Laércio Nunes) pode ser perfeitamente perder o orgulho e berrar Me dá um dinheiro aí (Ivan, Homero e Glauco Ferreira). Ou se pega o lado romântico do morro (se é que existe) como Lata Dágua (Jota Júnior-Luiz Antonio) pode-se, por que não, falar que se tem um Coração de Jacaré.
Coisas lindas como Máscara Negra (Zé Ketti e Pereira Matos) podem perfeitamente ser emendadas em manjados pout-pourri de discos caça-níqueis (bastante populares principalmente na década de 70) com Cachaça (Mirabeau- L. de Castro-H. Lobato e Marinósio Trigueiro Filho). As mais contemporâneas, entretanto, trouxeram uma certa boçalidade. Ao lado de pérolas, vieram, por exemplo, a Maria Sapatão e Bota a Camisinha. Ai, ai. Se bem que no auge da alegria quem é que está preocupado em estrutura poética?
EspaçoAs marchinhas são para sempre, é certo. Mas, da década de 80 em diante, pelo menos nos grandes centros, o estilo passou a ter um espaço cada vez mais reduzido. Vários são os fatores que contribuíram para isso. O principal: a entrada de outros estilos - modismos, na verdade - como o axé-music. Quem, em meados de 80, não cantou Mamãe eu Quero e também Fricote, do Luiz Caldas?
Outro fator interessante: o interesse pelos sambas de enredo nos bailes de Carnaval dos grandes centros subtraiu, e muito, o bloco destinado às marchas. Mas elas permanecem. Dignas, mesmo que tenham que repartir espaço com hits de grupelhos baianos. Bebeu água?/ Tá com sede?/ Olha, olha, olha a água mineral.
Hum! Ainda bem que tem gente que pensa que cachaça é água.


