"Veio até aqui, mas estamos temerosos", comenta Irajá. Como representa a poesia que dependurou do teto da loja e que abre essa reportagem, os tempos são outros. O livreiro identifica-se como saudosista. Nostálgico, lembra de outras épocas, em que os corredores da loja estavam sempre cheios. "Sábado era uma loucura", resume. Irajá é da turma acredita que os novos meios e a facilidade de acesso a conteúdo na Internet está mudando a forma como as pessoas leem e compram livros.
Durante a conversa com a reportagem da Folha, volta e meia cita os nomes dos personagens do Estado que passaram por ali. Cecília Westphalen, Ney Braga, Dalton Trevisan. Este último não aparece há 20 anos. "Ele tinha o hábito de vir aqui com as edições mais novas de seus livros para trocar pelas antigas, que rasgava e jogava fora. Um dia um jornalista veio conversar comigo e eu mostrei uns livrinhos que o Dalton tinha editado quando era adolescente." Aquele gesto marcava o fim da relação dos dois.
Irajá fala de tudo como se fosse o fim de uma era. Sobre os personagens que cita, lembra que ou já morreram ou estão indo. Entende que cada vez é mais difícil encontrar boas bibliotecas para comprar - refere-se ao fato de que parte de sua matéria prima vem do acervo de particulares. Da caixa registradora do início do século passado aos "reclames curitibanos de 1900", exibidos do lado de fora, a Feira dos Livros Usados é uma lembrança dessa Curitiba que foi, e, como disse Dalton, não é mais. À direita da entrada, uma vitrine batizada de "Gente nossa Paraná" exibe livros sobre a história da cidade e do Estado. À esquerda, outra, com best-sellers, representa, na opinião do dono, o marketing da literatura.
Em seus 67 anos de existência a loja é recheada de histórias. Tem a do cliente que dormiu na livraria - lia numa sala dos fundo e acabou esquecido. Tem as a respeito do pai de Irajá, lembrado como o velho Reis, que emprestou muitos livros para universitários devolverem depois de completarem o curso. Mais para o fim de sua vida, Reis abandonou as leituras marxistas (chegou a ir em cana várias vezes por causa da ideologia comunista) e dedicou-se ao espiritismo, tema contemplado com a estante número 01 da livraria. Hoje, Claudio da Luz Reis é nome de rua no Cotolengo e do centro espírita que ajudou a fundar no Santa Quitéria. A família segue o seu curso. O neto Denizard de Andrade, que por anos trabalhou ali, administra o Livro Lido, um sebo que vai de vento em popa em Maceió, Capital do Alagoas. Para aqueles a quem o nome soa familiar, Livro Lido já teve a sua versão curitibana, aberta pelo velho Reis na década de 1960 onde hoje funciona o bar Gato Preto. Antes de levar para Maceió em 2007, Denizard reabriu a loja na Jesuíno Marcondes. (R.U.)

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