Mais do que simplesmente decidir pela continuidade ou não do comércio de armas de fogo no Brasil, os cidadãos convocados às urnas para o Referendo do dia 23 de outubro vão provar que, se estiverem realmente convictos do próprio voto, participar de tal escolha é antes de mais nada um verdadeiro exercício de cidadania. O voto, como se sabe, é obrigatório. Porém, fazer a escolha transformou-se num desafio, frente a tantas dificuldades para se obter informações sobre qual decisão será realmente eficaz na luta pela manutenção da segurança pública no País. Até agora, as duas frentes (pelo ''Sim'', que defende a proibição do comércio, e pelo ''Não'', favorável à continuidade da venda) argumentaram com informações vazias e sem fundamento técnico.
Pesquisas divulgadas com frequência por institutos conhecidos no Brasil, como Ibope e Gallup, já vinham apontando para uma tendência em favor do Sim o voto que vai dar fim ao comércio legal de armas de fogo no País. Hoje, a realidade é outra. As pesquisas já apontam um empate técnico entre as duas opções.
Consultados individualmente, no entanto, os cidadãos que fizeram a escolha pelo Sim mostram o apego a argumentos não fundamentados e pontuais, o que não refletiria a realidade de um País com 180 milhões de habitantes. Os argumentos, por sinal, são os mesmos utilizados pela campanha da frente pelo Sim, divulgada em rede nacional desde o dia 1º de outubro.
''Quase 90% das armas de fogo nas mãos de bandidos são provenientes de famílias ou pessoas de bem que foram roubadas. São estas armas que abastecem o crime e que, ao mesmo tempo, provocam a morte por motivos banais, como brigas de trânsito ou de família'', argumenta a coordenadora da Rede pelo Desarmamento do instituto paulistano Sou da Paz, Beatriz Cruz. ''Engana-se quem pensa que uma arma pode ajudar um cidadão a se defender. O fator surpresa está do lado do bandido. Além do mais, quem realmente precisar de uma arma vai poder renovar ou retirar o porte. E a produção nacional é exportada em mais de 70% do total, o que desqualifica o argumento de que o fim do comércio vai gerar desemprego'', completa.
Beatriz argumenta com convicção. Mas, segundo o delegado-chefe da Polícia Civil de Londrina, Jurandir Gonçalves André, e o agente da Polícia Federal Edivaldo Félix, nenhuma das razões usadas por ela encontram respaldo técnico, estatístico ou científico. ''Ela até tem razão quando afirma que mais da metade das armas de fogo na mão de bandidos foram roubadas de famílias de bem. Mas em compensação, o armamento proveniente do contrabando, que não vai ser afetado pelo fim do comércio, é o mais pesado e, portanto, perigoso, já que vai continuar nas mãos dos grandes bandidos, como traficantes'', explica Félix.
''Em Londrina, por exemplo, são raríssimos os casos de homicídios por motivos banais. Por isso, não acredito que o fim do comércio de armas possa ter reflexos significativos no registro de mortes'', continua o delegado. E quando fala sobre a possibilidade de renovação ou retirada do porte de armas, Beatriz toca num dos pontos mais obscuros do referendo até o momento: o regulamento realmente trata dos direitos de quem comprova a necessidade de uma arma, mas não especifica, em nenhum momento, como esta pessoa vai comprar munição, por exemplo.
O argumento a respeito da importação de armas também é facilmente rebatido pelo presidente da Ong Viva Brasil, uma das entidades que apóia a frente pelo Não. ''A margem de lucro gerada com a venda interna ajuda as indústrias a manter um preço competitivo para exportação. Se as vendas dentro do Brasil forem proibidas, a exportação será seriamente afetada'', explica o advogado Benê Barbosa.
Ganha força, neste momento, a frente pelo Não, a que prega a continuidade do comércio de armas de fogo no País. O crescimento, no entanto, deve-se muito mais à fragilidade das informações da frente contrária do que pelas próprias explanações, já que, da mesma forma, nenhuma das justificativas apresentadas por quem quer a manutenção da venda de armas conta com bases sólidas.
''A maior parte dos crimes cometidos com armas de fogo acontece com revólveres e pistolas ilegais, o que não vai se alterar com o fim do comércio. Também não é possível dizer se vai haver redução efetiva da criminalidade, já que não há um controle eficiente do registro de armas no País, que pode contar hoje com um número entre 17 milhões e 25 milhões de unidades, legais ou ilegais. E por fim, se o Sim for referendado, o que vai acontecer é um cerceamento dos direitos dos cidadãos que optaram pelo Não. O direito coletivo vai se sobrepor ao direito individual'', argumenta Barbosa.
Com a mesma facilidade com que combatem as afirmações de Beatriz, Jurandir André e Félix levam abaixo as armas para a defesa das teses de Barbosa, provando, mais uma vez, a fragilidade das informações que as duas frentes têm disponibilizado à população. ''Ele tem razão quando diz que a maior parte dos crimes acontece com armas ilegais. O que ele esquece é que estas armas ilegais já foram legais, um dia. Elas saíram, em sua maioria, das lojas devidamente regulamentadas'', explica o delegado. ''Não sei até que ponto é legítimo afirmar que o Referendo é anti-democrático, se a posição que vai ser aprovada é a da maioria popular. A fórmula é a mesma de uma eleição. É possível dizer que o Lula não é o presidente das pessoas que não votaram nele?'', questiona Félix.
E Beatriz apela para o considera politicamente correto quando rebate a afirmação de que não é possível estimar se vai haver redução significatica de mortes por armas de fogo. ''Se apenas uma vida for salva, já vai valer a pena''.
Na semana passada, o jornal ''O Estado de S.Paulo'' mostrou que 29% da população não sabe responder o Referendo da forma como lhe interessa. Algumas pessoas entendem o Sim como o voto que vai permitir o comércio de armas, e o Não como a opção que vai proibí-lo. As opções são justamente o contrário disso.
Avaliação Ora sofrendo influências explicitamente interesseiras, ora perdido em um vazio de informações, cabe ao cidadão buscar os meios mais eficientes para decidir, no dia 23, o voto pelo Sim o que proíbe a venda ou pelo Não o que permite a continuidade do comércio. O conselho vem do delegado Jurandir Gonçalves André: ''Mesmo que não seja uma escolha pessoal, cabe a cada cidadão avaliar se ele está ou não em condições de ter uma arma. Existem vários outros recursos que podem ser usados na segurança de uma casa ou de uma família. Por outro lado, algumas situações exigem a tomada de ações agressivas. Tudo isso deve ser levado em consideração'', conclui.

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