Reencontro
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Karla Losse Mendes<br>Equipe da Folha 
Ele a viu três estandes à frente e a reconheceu de imediato. Poderia ter passado séculos e ainda tinha certeza de que a reconheceria assim que a visse. ''Mas não eram séculos, pensou, apenas dez anos. E como estava bonita''. Queria mais que tudo falar com ela, mas tinha medo. Afinal seu marido era um casca grossa, ciumento. Queria lhe contar tudo o que sofrera e tudo o que passara nos últimos tempos. Ela, sua melhor amiga e companheira de outros tempos, mais do que nunca saberia acalmá-lo. Melhor não, poderia complicar as coisas da vida dela. Virou o carrinho de compras e procurou da forma mais discreta o possível, escolher a marca de macarrão. Passaria despercebido no mercado cheio de pessoas para o começo de mês.
Ela o viu e reconheceu imediatamente, cerca de três estandes à frente. ''O mesmo bobo de sempre tentando fingir que não a tinha visto. Como estava bonito e parecia mais jovem. Afinal, fazia tanto tempo'', pensou. Gostaria de conversar com ele, tanta coisa nestes anos para contar. Dissimulada, fingiu bater seu carrinho no dele por acaso. ''Desculpe, senhor'' Ele ergueu os olhos. ''Não, eu que deixo tudo largado. Meu Deus, Ângela, que coincidência''. ''Como vai você?'' perguntaram os dois ao mesmo tempo. ''Estou bem''. ''Estou bem''. E agora, sobre o que falar? ''Como vai sua mulher? Acho ela muito elegante'' ''Morreu, coração.'' Disse consternado Gustavo. ''Meu Deus, me perdoe, eu não sabia'', respondeu Ângela sem jeito. ''Tudo bem, já faz anos. E seu marido?'' ''Divorciei, nunca tinha dado muito certo mesmo''. Ele faria tudo para aquele brilho de felicidade em seus olhos não estivessem lá. Mas estavam. ''Está com fome?'' ''Estou''. No mesmo lugar, minutos depois, pessoas apressadas praguejavam contra a ineficiência do mercado em retirar carrinhos que ficam abandonados no corredor.


