Recrutas, voluntários ou não
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quarta-feira, 18 de março de 2009
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
Edmar Cordeiro olhou bem para os tenentes Santana e Alexander e pensou. ''Quero ser isso aí.'' Formou-se na Academia Militar das Agulhas Negras e hoje responde por capitão Cordeiro. É comandante de um batalhão de 44 homens que têm a mesma idade que o seu tempo de serviço: 18 anos. ''Procuramos trabalhar com voluntários'', diz. Depois de passarem por uma maratona de provas, o que inclui exame médico e teste psicológico, restaram 113 jovens - 68 do quais eram voluntários - para a escolha do responsável pela Polícia do Exército do quartel-general do Pinheirinho - onde fica o comando das operações do Paraná e Santa Catarina.
No prédio ao lado, está a sala do major Disney. Disney Rodrigues Borges Barreto, 35, é o responsável pela Companhia de Comando. Desde o dia dois de março, 122 recrutas são o seu foco. Cento e um deles, voluntários. Vinte e um, não. ''Estudamos o impacto em suas vidas e procuramos atender o máximo possível'', diz. ''Para nós, é muito importante que não se tornem um problema social aqui no Exército.'' O major afirma que cabe a ele motivar os que não têm interesse.
É o caso de Gabriel Pereira Stofella, 18. Estava na reserva, outro recruta passou mal e, na quinta-feira, 18 de fevereiro, recebeu a ligação que definiria o destino de seus próximos 365 dias. As duas primeiras semanas são de internato - os jovens não retornam para casa ao final do expediente. Conversamos com Gabriel no seu quarto dia de Exército. Se ficou triste? ''Triste, não. Fiquei p. da cara'', responde. Ele sonha estudar Arquitetura, mas não passou no vestibular da Universidade Federal.
Gabriel afirma que a família dispõe de boa condição social e que seu pai tem trabalho fixo. O jovem fazia um curso técnico de Design de Interiores, não se imaginava servindo e é categórico. ''Já que estou aqui, vamos aí.'' Não é muito cumpridor de horários e diz que vai aprender a mudar. Também não gosta muito da estrutura hierárquica, de ter de cumprir ordens. ''Mas, francamente, não é difícil.''
Conversamos com um soldado antigo. Ele afirma que recruta só se dá mal. Na prática, não é o que os jovens que entraram no dia dois de março contaram nas entrevistas para a FOLHA. Alguns sofrem, especialmente nos primeiros dias. ''Tem muita gente que quase chora, sofre muita pressão'', conta o recruta Gerson Cristino de Souza, que já completou 19 anos. ''A família sugeriu e entrei aqui por minha própria vontade. É puxado e uma lição de vida.'' Antes, ele nunca tinha tomado banho de minuto - no banheiro, coletivo, há 11 chuveiros.
''Estamos cortando o cordão umbilical com a família'', explica o capitão Cordeiro. ''E se você vai dar fuzil na mão, precisa transformar esse moleque em homem.'' O capitão acredita que preparo físico o jovem ganha, mas já tem de vir com equilíbrio emocional na bagagem. ''Correndo todo dia não tem como não adquirir. A parte cognitiva, intelectual, ele aprende. A parte afetiva é o complicado'', afirma.
A tenente Renata Guerra, 30, da comunicação social do exército, é uma das poucas mulheres a circular por ali. Acompanha os meus passos e é bastante solícita. Interrompe a conversa com o capitão para contar que, antes do recruta executar cada exercício, o superior mostra como fazer. ''A palavra convence e o exemplo arrasta'', lembra Renata, citando um ditado.
Jovens
Alexandre Marcelo Filla, 18, estava, como ele mesmo diz, sem fazer nada. ''A primeira vez que entrei no quartel não queria servir. Mas mudei de ideia. Pensei: não custa tentar.'' Vai receber R$ 453 mensais, além de tratamento médico e odontológico, roupas, itens de higiene, café, almoço e jantar. De casa, trouxe cuecas e meias - para quem não leva, o Exército cede algumas. ''Já tinha ideia como era, pois um amigo tinha me contado.'' Com uma semana de serviço militar no currículo, o recruta que mora no bairro Campo Comprido conta a sua opinião: ''Não é um bicho de sete cabeças.'' ''Aprende a ter disciplina, a acordar na hora certa, e a cuidar da própria aparência'', afirma o jovem que, agora, acorda às cinco e meia da manhã nos dias de semana. ''Se você fizer o que te mandarem, é tranquilo. É só isso.''
Kaio de Jesus Ribeiro, 18, esqueceu de tirar um fiozinho da barba. Na sexta-feira da primeira semana de internato, em vez de sair ao meio dia para passar o final de semana em casa, ganhou uma vassoura e horas a mais no quartel, varrendo o pátio como punição corretiva - item mais comum no início das atividades. ''O pessoal aprende rápido; estão com muita ansiedade'', comenta o tenente Douglas da Silva, 24, responsável pelo treinamento de 133 recrutas que dividem um mesmo dormitório com 67 beliches.
''Eles chegam aqui com as histórias dos antepassados, de porrada e tortura. Hoje em dia é outro momento e não é tão difícil como pensavam'', conta Douglas. ''Hoje tem até repórter aqui dentro.'' No começo o número de baixas, de soldados que passam mal, é maior - quatro pessoas em um pelotão de 33 no primeiro dia, para citar um exemplo. Como lembra o tenente, isso normalmente acontece com o pessoal que está com sobrepeso.
Maikon Douglas Ferreira, 18, mora em Colombo (Região Metropolitana de Curitiba) e chega ao quartel de ônibus. Tem 1,66m e 85 quilos. ''Não vou mentir. Para mim, que sou gordo, o mais difícil é a parte física.'' Ele largou o emprego de balconista, em que ganhava mais (R$ 480), para abraçar a oportunidade. De seu grupo, os 122 comandados pelo major Disney, menos de dez vão engajar, continuar no Exército após o primeiro ano. ''Acho difícil, mas se não der para continuar, vou poder contar para os meus filhos que servi.''
Ele acredita que, uma vez que nunca foi apegado aos estudos, suas chances diminuem. A possibilidade de uma renda estável, de aposentar-se mais cedo e de seguir a carreira na qual seu pai não teve oportunidade - foi dispensado por excesso de contingente - são suas motivações. Por enquanto, sua preocupação é outra. ''Tenho que lidar com o que chamam aqui de carga de carcaça. Os outros que são magros tiram de letra.''
Eder Luiz Ribeiro, 18, tira de letra e ainda sonha em fazer gols de placa. Não foi voluntário e deixou os gramados um pouco de lado desde que começou a namorar, quando tinha 15 anos. ''Tenho que fazer testes, acho que seria um bom jogador'', diz. Trabalhava em uma loja de sapatos em um shopping, emprego que lhe garantia R$ 800 por mês. Conta que gostou de ficar no Exército. Já fala com gosto de despedida: sai amanhã o resultado do exame que confirma se sua namorada está grávida. O que também pode ser o passaporte para ele deixar o serviço militar. Em uma segunda conversa com a FOLHA, desta vez por telefone, conta que, agora que acabou o internato, está ainda mais tranquilo, uma vez que volta para casa todos os dias.


