Quem é que se lembra da ''Família Folha'', os garotos propaganda de uma das primeiras campanhas para a reciclagem do lixo doméstico na capital paranaense? Lá se vão mais de dez anos desde a sua criação e, ao que parece, nesse meio tempo, a família cresceu e se reproduziu. A consciência ecológica, despertada dentro de cada indivíduo, passou para escalas maiores, influenciando a gestão de alguns condomínios da cidade, que transformam a separação do lixo não apenas numa conduta responsável, mas também numa prática lucrativa.
Foi o que fez Antônia Gomes, do condomínio San Sebastian, no Bairro Bacacheri. Logo que assumiu o mandato de síndica, há seis anos, uma vizinha engenheira ambiental lhe procurou para sugerir que adotasse um sistema de seleção dos resíduos para facilitar a venda da sucata.
Ao perceber que a maioria dos moradores não tinha interesse pelo assunto, ela decidiu recrutar um público mais receptivo a novas idéias. ''Promovi uma assembléia com as crianças para que elas educassem os pais nesse sentido'', conta. Em contrapartida ela combinou que o dinheiro arrecadado com a primeira venda do lixo seria usado para a reforma do parquinho. A turminha topou o compromisso e passou a fiscalizar os adultos.
Um desses colaboradores mirins é Théo Sprenguer, de 6 anos. Ele passeia pelo condomínio com ares de autoridade, pois foi promovido a síndico por dona Antônia, com direito a um salário de balas. ''A gente tem que cuidar para as crianças não brigarem e não sujarem o prédio'', conta o pequeno fiscal, que garante que na sua casa todo mundo aderiu à reciclagem. Sua companheira Victória Milla, de 7 anos, concorda com o mini-síndico. ''Tem que reciclar para não virar sujeira'', adverte.
Dinheiro para obras
Segundo Antônia, hoje 80% dos moradores do San Sebastian separam o lixo. Depois de recolhido, ele vai para a lixeira onde passa por uma triagem feita pelos funcionários do condomínio, onde são separados os materiais: papel, plástico, metal e vidro. A atividade mostra-se lucrativa, a cada 15 dias são arrecadados cerca de R$ 250 com a venda do material.
Com isso, além da reforma prometida do playground, já foram mobiliados três salões de festa e foi comprada a tinta para a pintura dos corredores dos edifícios. ''É como um presente de Natal, todo ano tem uma sobrinha para uma obra'', comemora Antônia, que já pensa em aproveitar o lixo orgânico como adubo da horta do edifício.
Mas nem sempre os resíduos são tão bem aproveitados assim. Em outro condomínio de Curitiba, localizado no Bairro Alto da XV, a separação do lixo não é tão lucrativa. Há dois meses a síndica Maria Cristina da Rocha Loures interrompeu a venda do material reciclável gerado pelos moradores devido ao baixo preço que vinha recebendo.
Segundo ela, a cada 20 dias um caminhão de uma empresa de reciclagem ia até o condomínio para apanhar a carga, que era separada previamente por funcionários. Cristina conta que, apesar do caminhão sair cheio de sucata, o valor pago era muito pequeno, cerca de R$ 50 por viagem. ''Na última, ele veio aqui e só deu R$ 19, aí resolvi parar, não valia a pena colocar um funcionário para separar'', lamenta. Hoje o lixo gerado no condomínio é colocado na rua para a coleta seletiva da prefeitura.
A grande disparidade de preços obtidos com a venda do material reciclado nos dois condomínios - que têm quase o mesmo número de moradores - tem explicação. Segundo a coordenadora de Resíduos da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Marilza Dias, a cadeia produtiva da reciclagem tem muitos intermediários. ''É por isso que os catadores recebem tão pouco'', afirma. Para obter um melhor preço o ideal seria contatar uma empresa maior, que fosse ligada diretamente a alguma usina de reciclagem.

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