REALIDADE & FICÇÃO - Tecnicismo superou o otimismo, analisam professores
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sábado, 03 de junho de 2006
Fábio Cavazotti<br> Reportagem Local 
Como explicar a distância entre o otimismo dos anos 60 e a apatia do mundo atual? O cardiologista e professor de Bioética da Universidade Estadual de Londrina (UEL), José Eduardo Siqueira, acredita que as explicações para este fenômeno passam pelo reconhecimento de que a tendência a ''resolver praticamente tudo pela ciência ocorreu em diversos momentos históricos. O último foi durante o Iluminismo, no século 18''. O maior defeito deste estado de espírito, segundo ele, é o desprezo à discussão filosófica em favor do aspecto puramente científico.
Sobre a década de 60, que o médico recorda como os Anos Dourados, ele acredita que se baseou numa dicotomia entre os anseios da população, que se encontrava em pleno processo de libertação de tabus sociais, e a ciência tecnicista, derivada predominantemente do poder econômico.
''Havia naquela época uma visão crítica da 2 Guerra Mundial, que demonstrou as coisas ruins que poderiam ser feitas quando o saber científico é apropriado por outras formas de poder. De lá para cá, a ciência avançou ainda mais, mas nada fez para refletir sobre si mesma. Os pontos de vista da nossa geração, infelizmente, foram vencidos e perdemos o embate pela humanização da ciência''.
Como consequência, ele vê uma sociedade mais desigual do que há 40 anos - envolta em graves problemas ambientais, bélicos e de saúde pública. A pretensa infalibilidade científica é chamada por Siqueira como a arrogância do saber. ''Um dos problemas para reverter isso é que pensar é uma construção. Já se disse que chegar a novos conhecimentos dói, e é isso mesmo. O ser humano acha muito mais fácil fazer o que já vem sendo feito''.
O professor de Filosofia Política da UEL, José Mário Angeli, também avalia que a apropriação do saber por interesses econômicos e de poder é fator limitante da democratização dos benefícios tecnológicos. Ele lembra que a utilização do conhecimento por uma elite remonta à sociedade ateniense da Grécia clássica. ''Como era uma democracia para alguns, quem se aproveitou da tecnologia foram os sábios e uns poucos. Para os gregos, em geral, o impacto foi pequeno''.
Após um período de ostracismo da ciência na Idade Média, em que todas as explicações naturais se esgotavam em Deus, filósofos da era moderna, como Galileu Galilei, René Descartes e Giovano Bruno, voltaram a colocar o homem no centro do processo de conhecimento. ''O lema era que o homem pode tudo'', explica o professor.
O 'represamento' dos benefícios tecnológicos para uma minoria começou a perder terreno com o advento da democracia política, quando ''as pessoas começaram a acreditar que também têm direito a usufruir do conhecimento''. É neste contexto que a década de 60, na visão de José Mário Angeli, foi exemplar da relação entre o desenvolvimento da ciência e desenvolvimento social.
''A década de 60 conviveu, ao mesmo tempo, com a consolidação da democracia e direitos sociais, e um desenvolvimento grande da ciência. As pessoas acreditaram que, a partir dali, a tecnologia passaria a servir a todos. Seria a libertação da humanidade''. Infelizmente, segundo o professor, não foi isso que ocorreu. ''A saída, hoje, é a auto-organização e auto-gestão da socidade. Fazer por nós mesmo deveria se transformar em norma''.


