REALIDADE & FICÇÃO - O futuro parecia muito promissor... há 40 anos
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de junho de 2006
Fábio Cavazotti<br> Reportagem Local 
''Um pouco antes do ano 2000, a ciência supõe que os veículos movimentar-se-ão com novos combustíveis de origem nuclear. O motor de explosão, a gasolina, será substituído por um motor elétrico de maior rendimento e muito mais elástico. Além disso, assinala-se um novo método para o transporte do século 21: a organização eletrônica do tráfego. Aos motoristas, bastará digitar o local de destino e os veículos serão conduzidos automaticamente''.
Esta notícia, publicada na Folha de Londrina em janeiro de 1966 e reeditada recentemente na seção ''Há 40 anos'' da página 2, no primeiro caderno, é emblemática de uma época de tranformação social e tecnológica que apontava para um futuro no qual o conhecimento resolveria a maior parte dos problemas que afligem a humanidade. A década de 60, conhecida como os Anos Dourados, foi marcada pela quantidade e diversidade de inovações a chegada do homem à Lua, a geração hippie, a explosão do rock, a consolidação dos direitos sociais , o que deu grande impulso para uma visão mais inocente e otimista do mundo.
A realidade, passados 40 anos, mostrou-se mais dura do que o sonhado e revelou uma tendência destrutiva do homem tecnológico, que justifica o alerta feito pelo Papa Bento XVI, no Natal de 2005, para que humanidade desperte para o conhecimento espiritual.
O promotor do Ministério Público estadual, Paulo Tavares, nasceu no início dos anos 60 e, apesar da tenra idade na época, recorda-se de uma expectativa favorável em relação a um futuro mais humano e com menos desigualdade social.''Aquela era uma época em que a gente ainda passava a maior parte do tempo brincando nas ruas, andando de bicicleta, e ouvia muitas histórias contadas pela família. Nossa fantasia do mundo era essa'', lembra. ''O que nos tirava dessa realidade era a televisão, que estava começando. Havia uma programação limitada, durante uma pequena parte do dia apenas, e com muito chuvisco''.
Tavares diz que a visão de futuro para as crianças dos anos 60 foi despertada pelos desenhos animados e heróis televisivos como Os Jetsons, que mostrava a vida de uma família do século 21; o National Kid e o Zorro. ''Era o que nos transportava para a ficção e nos tirava da realidade. O National Kid e o Zorro chamavam a atenção pelo heroísmo, pela idéia de justiça. A gente torcia muito por eles. Já a família Jetsons fazia referência à tecnologia: eles moravam num lugar super alto, usavam veículos voadores. Era uma coisa fascinante e a gente ficava pensando: será que o futuro vai ser assim?''.
Sobre o resultado prático do desenvolvimento da ciência nos últimos 40 anos, o promotor analisa que não pode haver maniqueísmo. ''Hoje tudo mudou, mas não podemos ser tão nostálgicos a ponto de achar que tudo está pior; houve avanços e retrocessos. A abertura maior entre pais e filhos melhorou muito. Hoje se fala sobre política, sexo, morte. Na minha época, quantas noites deixei de dormir pensando na morte. Dava muito medo e não se conversava sobre isso''.
A professora Dulce Dezan, nascida em 1947, também se recorda de um clima mais inocente na sociedade dos anos 60. Segundo ela, havia uma expectativa de que a tecnologia ''poderia servir para desenvolvimento social, em benefício da humanidade''. O fato que mais marcou sua vida naquele tempo foi a chegada do homem à Lua, em 1969. Passados 37 anos, a professora lembra do acontecimento com emoção. ''Achei maravilhoso, deu um novo sentido para as coisas. A gente tinha a impressão de que algo muito grande estava acontecendo. Lembro-me até hoje daquele dia, todo mundo parou para assistir'', conta.''Outra coisa marcante foi a descrição do astronauta que viu a Terra do espaço (''A Terra é azul!'', disse Yuri Gagarin). Ele mostrou que o planeta era algo muito especial, o que fez aumentar bastante a responsabilidade do ser humano''.
Dulce avalia que, apesar do otimismo com o futuro, as notícias e informações remanescentes da 2 Guerra Mundial, encerrada duas décadas antes, davam um sentido concreto do espírito destrutivo do ser humano aliado à ciência. ''A gente sabia que as coisas tinham dois lados, víamos as fotos da guerra na revista Cruzeiro e sentíamos todo aquele sofrimento e desespero''.
Sobre o mundo atual, a professora acredita que, dentre as áreas em que a tecnologia se mostrou mais benéfica, estão a medicina e telecomunicações.
Já o comunicador José Makiolke, o Zezão, nascido em 1947, tem outra visão sobre o assunto, marcada pela descrença no poder da ciência e da tecnologia de se colocar favorável à humanidade. De acordo com ele, ''a essência do ser humano é a mesma desde o início da história. Ele é o bicho mais perigoso da natureza e usa o conhecimento a serviço da morte''.
Zezão lista indicativos do que classifica como a tendência destrutiva do ser humano. ''Um exemplo é a vida de Santos Dumont, que acreditou na invenção do avião como um fator de desenvolvimento porque deslocaria as pessoas e poderia levar remédios para todos os lugares. Depois, o homem instalou metralhadoras no avião, colocou bombas, e seu inventor acabou se matando. A invenção da pólvora também mostra isso. Quando surgiu entre os chineses, era usada para atos religiosos, mas quando se descobriu que poderia ser usada para matar, mudou tudo'', complementa.
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