QUESTÃO DE NÚMERO - Quem tem medo dos 50?
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de março de 2008
Giuliana Reginatto<br>Agência Estado 
São Paulo - Quem assistiu ao filme ''Stardust - O Mistério da Estrela'' viu Michelle Pfeiffer envelhecer meio século em duas horas. Lâmia, uma bruxa obcecada pelo mito da juventude eterna, serviu-lhe de terapia. A um mês de completar 50 anos, um dos rostos mais perfeitos dos anos 80 e 90 redescobre seus contornos. ''A maquiagem de envelhecimento foi perturbadora porque vi como estarei no futuro e não gostei. Minha esperança é que eu envelheça bem'', disse à revista americana ''OK''.
Michelle amadurece sua beleza em boa companhia. Com ela, chegam aos 50 neste ano Madonna e Sharon Stone, a dona da cruzada de pernas mais sexy do cinema, em ''Instinto Selvagem'' (1992). ''As mulheres que hoje têm 50 são as jovens dos anos 70, uma geração revolucionária que provou como era possível trabalhar fora e ser boa mãe, que ousou se divorciar e casar outra vez. Agora, estão quebrando os estereótipos contra o envelhecimento'', analisa a escritora Maria Tereza Maldonato, mestre em psicologia pela PUC.
Especialista em maturidade feminina e integrante da American Family Therapy, Maria Tereza trabalha em parceria com uma marca de cosméticos na divulgação da pesquisa mundial ''A Beleza Amadurece'', que acaba de chegar ao mercado.
Após ouvir 1.450 mulheres com idades entre 50 a 64 anos, o estudo chegou a um dado que expressa mais angústia do que orgulho: 93% das entrevistadas garantem que as mulheres maduras são vistas de forma distorcida pela sociedade. ''Ocorre uma dicotomia entre o que a mulher sente e a maneira como ela é vista, pois ela sente-se jovem mas o mundo a vê como avó'', comenta a gerontóloga Dorli Kamkhagi, coordenadora do Gender Group do Amadurecimento no Hospital das Clínicas.
O que é ser uma avó? ''Eu trabalho, faço inglês, malho, dou aula, me divirto, me apaixono e sou avó. Isso é ser avó nos anos 2000'', responde a dentista Leila Azure Vieira, 52 anos. ''Gosto mais de mim hoje do que há 15 anos'', completa.
A atriz Lília Cabral também tem bons motivos para festejar sua maturidade. Aos 50 anos, 27 deles dedicados à televisão, comemora a primeira indicação ao Emmy Internacional de melhor atriz pelo desempenho em ''Páginas da Vida'' (2007). ''Quando o sucesso vem na maturidade você está mais preparada, vê aquilo sem deslumbramento. Vê também seus fracassos mais honestamente, pára de colocar a culpa em todo o mundo quando erra'', garante.
Para Lília, o amadurecimento tem mais a ver com a qualidade de vida do que com a quantidade de anos vividos. ''Nunca fumei, não bebo, evito frituras, não como carne de porco, mas isso não significa que pretendo brecar o tempo. Aos 50 você tem de fazer exames a cada seis meses, é inevitável. Você começa a pensar mais na saúde do que na estética, algo que nem sempre se faz aos 30 anos. Nunca coloquei botox, nunca fiz plástica, preciso que meu rosto conte uma história . É ridículo ver uma pessoa de 50 que se enche de plásticas e se comporta como se tivesse 20. Essas atitudes são sinais de insegurança.''
Se o excesso de retoques pode ser encarado como baixa auto-estima, dados colhidos no Brasil merecem atenção especial. ''O índice de plásticas entre as brasileiras com mais de 50 anos chega a 15%, número extremamente alto ante os 4% registrados em quase todos os demais países estudados'', explica Maria Tereza.
Além do Brasil, participaram do estudo EUA, Canadá, México, Reino Unido, Itália, Alemanha, França e Japão. ''A sociedade brasileira deposita valor demasiado na aparência. É quase proibido envelhecer. Passamos a ver mulheres atemporais e com rostos sem expressão, pois não podemos ter idade. Esta tentativa de deter o tempo passa a ter conotação doentia, pois valores como a história e legados deixam de ser importantes'', acredita Dorli.
Recentemente, os tablóides norte-americanos criticaram a postura antienvelhecimento de Madonna. Macrobiótica radical e obstinada por formas enxutas, teria tentado unir sua casa à academia por um túnel, mas a proposta foi vetada pela administração de Londres. Como alternativa, instalou os aparelhos em sua mansão, em um espaço de 18 m2. Convivem dentro dela duas mulheres: uma que tenta parar a ação natural da gravidade sobre o corpo; outra que sente-se madura o bastante para encarar novos desafios profissionais.
Liberdade
''Quando a mulher de 50 pára de brigar com o espelho, a fase é maravilhosa porque traz liberdade. Em geral os filhos já estão crescidos, ela enfim poderá cuidar da sua vida. Essa mulher não está à beira da aposentadoria'', diz a gerontóloga Cláudia Ajzen, professora da Unifesp.
Também da linhagem Pfeiffer, embora sem parentescos com a norte-americana, Silvia, ex-modelo e atriz, é outra diva brasileira que chega aos 50 diante de novos desafios profissionais. Após uma temporada em Portugal, ela retornou ao Brasil disposta a experimentar o teatro. Aprendeu a dançar e, no ano passado, virou par de Carlinhos de Jesus no musical ''Pé na Estrada''. Cláudia Jimenez e Cássia Kiss completam o time de famosas que festejam meio século de vida em 2008.
Se das famosas maduras o mundo espera uma silhueta exemplar, fora da fogueira das vaidades um visual caprichado pode ser mal interpretado. Entre as brasileiras consultadas, 99% acreditam que a sociedade reluta em aceitar que mulheres acima de 50 anos se preocupem com a aparência. A artesã Maria Ângela Haddad, de 55, enfrentou o preconceito da própria família quando decidiu colocar silicone e passar por lipoaspiração no abdômen. ''Meu filho e marido acharam muito fútil. Levou mais de um ano para ficarem de bem comigo'', lembra.
Maria Ângela diz que os cuidados estéticos ajudaram a encarar o correr do tempo sem crise, mas frisa a importância do equilíbrio interior para amadurecer com tranquilidade. ''A cabeça precisa estar boa, você precisa sentir-se jovem. Eu me sinto na flor da idade, mas fujo dos excessos. Mesmo que não me perguntem a idade eu vou logo dizendo, tenho orgulho''.
PESQUISA
A marca de cosméticos Dove ouviu 1.450 mulheres de 50 a 64 anos em nove países, inclusive no Brasil
86% das mulheres sentem orgulho em compartilhar sua idade com os demais. No Brasil, esse índice sobe para 94%
69% das entrevistadas lamentam que o envelhecimento seja muito mais ocultado do que celebrado pelas mulheres
97% das consumidoras brasileiras acreditam que a propaganda e a mídia deveriam trazer imagens mais realistas de mulheres com mais de 50 anos
53% das brasileiras disseram que usar biquíni é o ato mais condenado pela sociedade para mulheres na faixa dos 50 anos
96% das brasileiras disseram haver falsos conceitos sobre as maduras. Entre eles, 73% apontam ''não curtir sexo'' e 72% destacam ''não flertar''


